pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Me atrapalho, desconfio dos efeitos dessa ausência

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Você não vai acreditar, mas eu tenho tanto pra te falar e ainda assim tenho estado quieta. As palavras me confundem e me escapam. Invertem a ordem, a dor, a falta. Elas se enroscam em sentimentos contraditórios. Fingir que não dói mais é uma mentira que insisto em me contar.

Você anda às voltas comigo. E me entrega presentes sutis. Você sempre foi dado a sutilezas. É presente uma virada de cabeça inesperada e um olhar profundo na minha direção. É presente uma história inédita de um amigo do bairro. É presente encontrar uma fotografia sua com um amor do passado. É presente um texto lindo escrito pelo Dr Iran pra mim.

Olha lá de novo suas sutilezas. Conhecemos o Dr Iran enquanto você dormia. Fomos apresentados por sua causa e não por você. Foi ele quem nos acolheu nos corredores do hospital.

Ele cuidou de você e de nós. As metáforas das suas melhoras eram o empilhar de  tijolinhos. Você ergueu muros, mas não foram suficientes. Você construiu pontes. Acho que a mais sólida delas leva ao Dr Iran. Meu presente:

“ Bettina Bopp,

A história conta que o bloco de mármore esculpido por Michelangelo para originar Davi, ficou aguardando 36 anos para ser utilizado.

O bloco foi adquirido 10 anos antes do nascimento de Michelangelo e esperou pacientes 26 anos para se deixar ser trabalhado.

Intimidou escultores com seu tamanho. Foi esquecido. 

Aguardou, como os profetas do Velho Testamento, por aquele que estava por vir, aquele que reinstalaria a glória em Israel. 

O tempo do homem não se confunde com o tempo apropriado à D’us. 

Aguardou o que tinha que aguardar.

Não esperou em vão. Reconheceu a criatura anunciada e permitiu-se desnudar, mostrar as entranhas, mostrar sua glória, parir Davi.

Michelangelo, o parteiro, transformou pedra em sangue e carne.

Há 14 anos, um amigo resolveu dormir, não como uma metáfora da morte, mas como um exemplo da vida improvável que se agarra e se desenvolve nas encostas dos penhascos e nas pedras onde as ondas arrebentam. 

Quando se pergunta para ele o porquê desta escolha, não responde. 

Mudo como um bloco de mármore, guarda em mistério o segredo que não quer falar, afinal esta é a única forma de se manter um segredo.

É perturbador um segredo de família, todos queremos saber. 

A intimidade cobra seu quinhão da privacidade, mas elas não se entendem muito bem. Não falam a mesma língua.

Era mais fácil com a esfinge: “Decifra-me ou devoro-te”. O mistério era dito em alto e bom som e, convenhamos, não era muito difícil de ser interpretado.

Sem poder fazer a pergunta, resta apenas o aterrador “Devoro-te”, sem nada mais, consequência cruel do segredo misterioso e silencioso.

É situação que angustia, é injusta, é cruel, é jogo sujo, sem o tal “fair play” que parece desculpar de antemão todas as agressões da partida que se inicia, do jogo da vida. 

O “devoro-te” é para valer. A cada dia, a cada primavera, a cada aniversário, um pedaço dos que vivem este mistério é consumido.

Ninguém quer ser devorado, há uma tendência à autopreservação nos seres. Não queremos sucumbir pela posse de um segredo, mas o risco existe e é palpável, onipresente, desafiador.

Há também uma grande caridade em alguns seres especiais que querem sempre defender os outros de serem devorados. 

Desafiam o risco de perseguir o que não quer ser dito e tentam abrir uma trilha no caminho fechado do silêncio.

Há 5 anos, um destes seres especiais começou a cuidar para que a família não fosse devorada pelo mistério.

Começou a dizer o indizível em seus textos, desistiu de querer decifrar o indecifrável e passou a semear com seus escritos a calma que acalma a alma. 

Semeou para os velhos, para os contemporâneos e para os da nova geração.

Nesta semeadura descobriu que não há pergunta, então não há resposta. Não há mistério, então não há segredo. Não há “Decifra-me”, então não há “Devoro-te”. Há apenas aquela vida improvável dos penhascos e rochas.

Sem se dar conta, fez a esfinge muda falar ou, melhor dizendo, deu palavras a quem não tem voz, fez reviver a memória de quem se julgava morto.

Colheu muito. No início a gente não percebe quão rica é a colheita, depois percebe. 

A vida do outro volta na calma que se aninha novamente na família.

Escrito assim pode parecer coisa fácil, coisa pouca. Não é. É processo duro de desmonte de expectativas e reconstrução de outras menos atraentes, mas quem pode dar um juízo de valor na vida do outro?

Os textos deram resultado, ficaram mais raros à medida que a paz se instalava e eles eram menos necessários.

Michelangelo esculpiu pedra, foi parteiro.

Bettina, profeta que espera o tempo propício, esculpiu sangue e carne, mas não foi a parteira, foi a parturiente.

Pariu toda a família novamente, pariu avó, mãe, pai, o irmão que dorme e o que vela, pariu filhos e sobrinhos.

Aguardou o que tinha que aguardar. Não esperou em vão. Viva Bettina!”

Tenho vivido, Dr Iran, e você tem me ajudado.

13 comentários em “Me atrapalho, desconfio dos efeitos dessa ausência

  1. Vanessa Manzine
    janeiro 2, 2020

    Que texto maravilhoso parabéns que Deus continue abençoando e vc possa continuar abençoando tantos com seu dom …

    Curtido por 1 pessoa

  2. Mariana Anacleto
    janeiro 2, 2020

    Você atrai histórias, segredos, enigmas, pessoas incríveis. Que lindo texto. Que linda maneira de olhar pra toda essa história e reconhecer seu imenso valor. Te amo, Bê.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Marilda Augusto
    janeiro 2, 2020

    Sem palavras, seu texto, sua sabedoria, seu amor me enchem de alegria e aquecem o meu coração. Muito amor envolvido. Família que eu ganhei no Facebook. Feliz 2020 e continua a corrente de amor, acorda Ita.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Tati
    janeiro 9, 2020

    Oi Bettina. A vida é tão maluca que não me lembro onde nos conhecemos. Lembro-me de que foi em um curso, no qual falou sobre o seu blog. Lembro-me de como a história me tocou e a anotação feita em um pedaço de papel qualquer ficou esquecida um tempo. Já há alguns meses eu reencontrei a inscrição em algum caderno ou bloco e cada vez que passo por aqui me recordo como a vida, mesmo agridoce, é bonita. Viva Bettina!

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  5. Fabiana
    janeiro 15, 2020

    Venho sempre a procura de textos novos, e esse foi lindo demais!

    Curtido por 1 pessoa

  6. Claudia Dantas
    fevereiro 26, 2020

    Oi Be!!! Feliz Ano Novo!!
    Sempre que me vejo mais sensíveis, fazer uma visita ao seu blog é um conforto, é onde vejo a expressão do humano nu e cru, com todas suas contradições sempre tão presentes ! Visito seu blog, na esperança do despertar do seu irmão! Poxa, se agente pudesse saber o que ele sabe desta vida que esta vivendo… Acredito que ele nos diria muitas coisas, mas certamente diria que seus textos são a parte mais interessante, verdadeira e divertida!!

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    • bettinabopp
      abril 10, 2020

      Clau, querida, só vi agora! Ando meio ausente do blog! Que saudades de vc! que loucura é essa que estamos vivendo! Quando tudo isso passar, quero te ver! bj grande

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  7. Renata
    abril 20, 2020

    Estou encantada com essas palavras. Como “sob efeito de um encanto” mesmo.
    Parabéns por tudo!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em janeiro 1, 2020 por .