pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Eu não sabia que doía tanto uma mesa num canto, uma casa e um jardim

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Você não vai acreditar, mas você sabe que eu nunca tinha reparado que a sombra da árvore na frente do F1 parece que abraça o muro? Ali da calçada em frente você não sabe onde começa o galho e onde termina a sombra do galho. Parece cenário, é bonito. E como é que a gente não perde tempo pra ver, pra estar e pra saber o que é de verdade?

Depois de anos, não vou mais trabalhar ali. Não, não fui mandada embora. O que não vai mais existir é o prédio do F1. Prédio não é bem a palavra. Era uma junção de casinhas e quintais que formavam uma escola.

Ali cresceram árvores, minhocas e memórias. Como será que as marias-fedidas vão se acostumar com os silêncios? Como é que é que vai ser pras lagartas não precisarem fugir dos pés pra serem borboletas? Pra quem os tatuzinhos farão a mágica de virarem bolas?

Não sabia que teria saudade antecipada. Não sabia que sentiria falta do passarinho em cima do muro. Será que o sabiá sabia? Ou ele também se pergunta pra onde foram os Tiagos, as Bias, as Luisas e os Edus? Pra onde correram tantas crianças?

No meio das férias subi a rua e parei em frente. Reparei. Daqui a pouco tempo não vão ter a tabela de basquete vista de fora, o terraço na frente da sala 1, o chão de pedras da praça.

Vi pelo portão aberto uma mesa de pernas pro ar. Mesas de escola dão cambalhotas.

Sobrarão bancos vazios, areia sem castelinhos, folhas amarelas caídas nos caminhos.

Por que se suicidam as folhas quando se sentem amarelas?

As perguntas do Neruda não estão guardadas nas prateleiras da biblioteca, mas têm outras tantas questões universais dos pequenos poetas cotidianos perdidas nas frestas de intervalos e recreios.

“Se eu me contorcer eu viro judia?”

“Caxumba é instrumento?”

“Quando você escutou que eu cai você sofreu?”

“Vou te trazer um presente. Tem de ser vela ou pode ser uma geladeira?”

“Sabia que eu sei fazer abacate?”, e abre espacate.

“Por que tem gente alérgica a tomate e mamão?”

“Perpétua significa muito tempo?”

“Quando os pais se separam a gente pode gostar do pai igual?”

Quem sabe no lugar onde moraram as pernas de pau haverá lugar para essas e outras tantas lembranças. Lembro do dia que você foi lá me avisar que o pai tinha levado um tombo e ia operar o ombro. Lembro que a Mariangela engasgou no refeitório com uma batatinha e foi salva pelas manobras da Tina. Lembro da sala onde estava dando aula quando recebi a notícia que a Isabella nasceu. Lembro das músicas, das cirandas, das fogueiras e cafés.

Fica combinado que os novos moradores ouvirão um sino fora de hora, um bom dia do Zeca no meio da noite, um bumbo, um surdo e um caxixi. E eles acharão que foi sonho, mas só a gente saberá que não. Segredo.

Em agosto ainda dias incertos, mas… a incerteza é uma ponte entre o que somos e os outros que seremos.

Eu volto pra te contar.

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18 comentários em “Eu não sabia que doía tanto uma mesa num canto, uma casa e um jardim

  1. Marilda
    julho 19, 2018

    Deslumbrante e cheio de amor como sempre. Bju

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  2. Silvia viegas
    julho 19, 2018

    Pois é Be. Lembra do brinde de inauguração do predio? Musicos tocando, Mariangela celebrando
    Tanto tempo, tantas histórias, mas o melhor de tudo? Sobraram boas lembranças que no final, é só mesmo o que fica.
    Liiindo texto!!!

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    • bettinabopp
      julho 20, 2018

      Sil, querida, o que me acalma é que ainda existem espaços educadores profanos e incríveis! Conhecemos!

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  3. Mariana
    julho 20, 2018

    Saudade,Bê!! Da Mariangela, de você, da Escola Viva. Como disse a Silvia, ficam as lembranças. Lindas lembranças.
    Lindo texto, como sempre.

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  4. Monica Vicentino
    julho 20, 2018

    Que lindo texto!! Que bom que você tem boas lembranças dessa escola, que fiquem guardadas na memória e no seu coração!!! Agora no novo lugar outras tantas virão com outros virão com novos sabores, aproveite!!! 🤗

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  5. Leila motta silva
    julho 22, 2018

    Lindo texto! Não conheço você , não conheci a escola… mas a poesia me acertou em cheio! A foto então é de constranger de tão poética! Parabéns!

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  6. romssouza
    julho 25, 2018

    Como diz, sabiamente, a Monja Coen Roshi: as mudanças são essenciais. Temos que estar abertos a elas pois fazem parte do nosso processo evolutivo. As vezes elas são bem doloridas, mas com paciência e resignação tudo se encaixa novamente.
    Que alegria poder ler mais um texto seu!
    Desejo que Deus ilumine seus dias e de sua família, especialmente do Ita.
    Fique em paz.
    Abraço.
    Rômulo

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  7. Amanda (@Amandabgrs23)
    julho 25, 2018

    Que texto lindo..

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  8. jppbloguer1310
    setembro 18, 2018

    Olá.. Meu nome é joao,tirei um pouco do meu tempo para ler seu blog.. Eu sonho em ser um policial assim como seu irmão… assisti um documentário aonde ele conta um pouco da sua história, e posso dizer que isso me deu mais coragem e vontade de lutar para alcançar este sonho… Mas então vi este seu outro irmão ao qual se encontra em coma.. Realmente não deve ser fácil… Mas posso dizer que tudo Há seu tempo assim como Há tempo de plantar e colher Há tempo de desfrutar do que se colheu então.. Não se preocupe ele está muito bem… E vai estar melhor ainda quando acordar.. Eu só tenho a agradecer a vc e toda sua família por me dar mais força para lutar obrigado 🙏💕

    Curtido por 1 pessoa

  9. Jarlusa
    outubro 30, 2018

    Tô com saudade dos seus textos

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Publicado em julho 18, 2018 por .

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