pra quando você acordar

por Bettina Bopp

A lei tem ouvidos pra te delatar nas pedras do teu próprio lar

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Você não vai acreditar, mas durante alguns meses fui contraventora. No Brasil, não parece novidade. A diferença está nos verbos “ser” e “estar”. Eu estive contraventora. Atenção, políticos de todos os partidos, trago verdades: dá pra deixar de ser contraventor sim. É uma escolha. Por mais que “doa”.

Bom, Ita, senta que lá vem história. E longa.

Do começo…

Dia 15 de novembro do ano passado, Bruna e eu estávamos saindo de casa. Calu, o guarda da rua que se autointitula “um amor de pessoa”, me parou na guarita.

– Ô, comadre, cê perdeu um papagaio?

– Não, mas eu AMO! – Bruna entrou no carro e saiu, sabendo que a chance de eu fazer alguma burrada era grande.

– É que a moça que trabalha naquela casa amarela encontrou um papagaio no meio da rua. Quase que os carros atropelam e os gatos do seu Jaime matam.

– Papagaio mesmo? Não tem papagaio em São Paulo. Deve ser maritaca.

– Não, moça, é papagaio mesmo.

– Ai, tadinho, deve ser de alguém da rua.

– Não é não. Ela tocou em quase todas as casas desde sábado. Faltava a sua e mais umas três casas. A moça tem que tirar ele da casa da patroa – ela chega amanhã de viagem e não gosta de bicho.

– Então eu quero!

– Vai lá e fala que é seu!

– Vou mentir? E o papagaio vai me bicar, não me conhece.

– Oxe, não tem perigo não. É só conversar com ele bem devagarzim. Eu vou lá com você.

Meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu vou ter um papagaio.

Calu tocou a campanhia, a moça olhou pela janela. Calu falou que eu era a dona do papagaio, a moça pediu pra esperar um pouquinho.

Meu Deus, meu Deus, meu Deus, como eu invento que ele chama?

A moça trouxe o papagaio com as unhas encravadas nas mãos dela.

– Ooooi, Zé…- falei e estiquei o braço.

O recém batizado “Zé” veio no meu braço e subiu até o ombro. A chance de bicar meu olho era enorme.

– É Zé o nome dele?

–  É!

Não era uma homenagem ao meu ex-marido. Achei que tinha uma probabilidade grande de se ter um papagaio chamado Zé, por causa da Ana Maria Braga e aquele boneco chato. Naquele momento eu vivia uma personagem: contraventora, mentirosa e espectadora do Mais Você.

– Coitadinho, quase que morreu. Tinham três gatos atrás dele e ele correu pro meio da rua.

Agradeci muito e vim caminhando, segurando o papagaio pela nuca e pensando como ele seria recebido pelos seis: Bruna, Lucca, Maria, Folk, Indie e Miw. O dito popular “…. meus filhos, cachorros, gato, papagaio…” fez sentido.

Como eu ia buscar a mãe, achei que era melhor levá-lo comigo antes de entrar no meu zoológico particular. Essa é a primeira foto do Zé no banco do meu carro e que mandei pra turma.

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Chuvas de críticas da Bruna e do Lucca e apoio da Maria, nos primeiros minutos,  porque ela tem esse lado infantil persistente como o meu. Logo, ela também se rendeu à coerência.

– Mãe, não tem anilha, é contravenção, você pode ser presa e ter de pagar uma multa. O Fabio vai ficar puto com você.

Ah, era só não contar pra ele. O mundo real é tão mais chato do que as histórias inesperadas…

Não podia colocar nas redes sociais perguntando se alguém sabia do dono, porque poderia ser denunciada ou enganada. Resolvi que o Zé ficaria solto no salãozinho aquela primeira noite, mas longe das garras da Miw. E que no dia seguinte levaria ao veterinário de animais silvestres aqui no bairro.

– Só pra ver se ele tá machucado! – justifiquei.

Zé comeu papa de banana e mamão na colher de chá e dormiu muito tempo no meu colo. Estava apaixonada.

Pedi pra Dani segredo e a gaiola da Neca, já que ela vive solta dentro de casa e ainda dorme na chuteira do Fabinho. Levei o Zé no veterinário. Ele era filhote, tinha no máximo 3 semanas. Que dó, devia estar aprendendo a voar.

O veterinário me falou que havia sim uma “epidemia” de papagaios em São Paulo, mas que na Vila Olímpia, a um quarteirão da Av. Santo Amaro, ele nunca tinha ouvido falar. O mais triste foi ele me contar que o IBAMA tá sem verbas para mantê-los em viveiros apropriados ou reintroduzí-los rapidamente no habitat natural. Então eles são colocados em gaiolas mínimas com muitos outros. Ou são vendidos ilegalmente – contraventores há em todos os lugares, até em uma casa vermelha na Vila Olímpia.

O veterinário me deu os telefones dos Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e dos Centros de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS). Voltei pra casa arrasada. Sabia o que deveria fazer, mas não queria.

Tonho, o guarda da noite, me viu carregando a gaiola do Zé.

– Sabe que no norte esses papagaios ficam no tronco dos umbuzeiros? Aqui na rua não tem umbuzeiro, mas tem uns papagaios desses.

– Você já viu igual a esse, Tonho?

– Já sim, perto da casa do seu Nelson.

Meu Deus, meu Deus, meu Deus, eu não posso querer outro.

– Tonho, se você encontrar igual a esse no chão pega pra mim. Assim, eles fazem companhia um pro outro.

Cinco horas da manhã, toca a campainha de casa. Assustada, olhei da janela do banheiro.

– Aconteceu alguma coisa, Tonho?

– Trouxe o papagaio pra você. Tava caído na rua.

Desci pra buscar. Ouvi a Bruna e a Maria conversando da janela. “Ah, não, outro papagaio!”

O outro papagaio não era bonzinho como o Zé. O outro papagaio bicou meu dedo. O outro papagaio era menorzinho, talvez ainda mais novo. O outro papagaio virou Otto papagaio. Otto para os íntimos.

Bronca em dobro e mais uma ida ao veterinário. Deviam ser irmãos. Fizemos a sexagem, retirando uma pena. O Otto era na verdade Otta.

– Mãe, liga pra p… desses CETAS ou CRAS ou liga no zoológico ou no Ibirapuera. O vizinho vai delatar a gente e você vai presa.

Liguei pra vários lugares: Ibirapuera não aceita aves, zoológico não aceita mais animais – e ainda sofrem com gatos abandonados que matam as aves. A USP também não aceita. O Parque Ecológico do Tiete está com superlotação de papagaios. O rapaz pediu pra eu esperar uns 3 meses e retornar a ligação. Claro!

Enquanto esperava, construí um viveiro pra eles. O veterinário me deu as medidas ideais e a tela apropriada. Damião, o guarda da rua da frente, e Cosme, seu irmão gêmeo, construíram pra mim.

– Vocês viram que eu tentei. O rapaz pediu pra esperar 3 meses… Eles precisam de sol, por isso o viveiro.

Coloquei troncos de árvores, vasos de ervas, balanço. Além da ração, sem semente de girassol porque não faz bem em excesso, colocava as frutas do meu quintal toda manhã: mamão, nêspera, romã, jabuticaba,…

Eu era muito feliz com eles ali. Só eu!

Por causa da Otta, Zé passou a também não gostar muito de mim. Ela, furiosa, voava pra cima toda vez que eu entrava no viveiro. Me sentia um boxeador desviando dos voos-socos da Otta.

O viveiro fica embaixo da janela das meninas. Aves acordam assim que começa a clarear. Zé e Otta gritavam a partir das cinco da manhã! Bruna e Maria, e provavelmente o vizinho advogadomalhumorado, também.

– Mãe, o vizinho deve te odiar! Você tá parecendo aquela mulher das pombas do Home Alone. E vai ser presa!

Há anos, políticos com sérias dúvidas quanto à sua honestidade podem se candidatar a um cargo político ao invés de serem presos. O Temer não vai preso. O Aécio não vai preso. O Sarney, o Moreira Franco, o Serra nunca foram presos. Eu seria presa?

– Mãe, nada justifica, liga pra p… dos CETAS de fora de São Paulo. A lei te procura amanhã de manhã com seu faro de dobermam.

Anhanguera, Limeira, Barueri. Todos superlotados de aves. Em um deles, o rapaz me disse que eu poderia tentar com um delegado ambiental a autorização para salvaguardar os papagaios enquanto não encontrava vaga.

– Foi o hominho que me sugeriu isso! Vocês estão vendo que estou tentando? Pra quem eu to telefonando? Pro Fabio pra ver se ele conhece algum delegado ambiental. Fabio? Você conhece algum delegado ambiental? A Dani te falou que eu encontrei…eu sei…mas é que o IBAMA…eu sei…eu sei…eu entendi…ta bom…beijo. Não quer me ajudar!

– Mãe, c-h-e-g-a!

Entreguei o Zé e a Otta pra policia ambiental. Fiquei triste, claro.

Justificativas pra ficar com eles eu teria muitas. Assim como quem para só um minutinho na vaga dos idosos ou deficientes.

Assim como quem toma só uma cervejinha antes de dirigir.

Assim como quem desvia só uns milhõenzinhos para ter as Olimpíadas e a Copa do Mundo no Brasil.

Ou pra presentear com joias e viagens a esposa deslumbrada.

Ou pra comprar votos de um Congresso podre e o silêncio de um Judiciário parcial.

O viveiro vai virar uma horta, protegida das malcriações do Indie. Já consigo identificar quando tem papagaios voando por aqui, geralmente às 5h00 da manhã. Forço a imaginar que meus dois estão bem, felizes, em reabilitação para serem soltos em algum lugar lindo na Bahia.

Vi e vivi com dois passarinhos verdes. Dizem que é sinal de esperança e boa sorte. Por enquanto, só uma boa história pra te contar.

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8 comentários em “A lei tem ouvidos pra te delatar nas pedras do teu próprio lar

  1. Tininha Loureiro
    outubro 18, 2017

    Vc é demais!!! Sem palavras…

    Curtir

  2. Ellen Oliva
    outubro 21, 2017

    Conheci os dois passarinhos verdes e o sorriso da amiga que os cuidava.
    Que estejam bem, minha querida.

    Curtido por 1 pessoa

  3. ALINE FERREIRA DE SOUZA
    outubro 27, 2017

    AMEIIII!!!! kkkk
    ” lado infantil persistente” é demais!
    Que texto divertido…
    beijoooo

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      dezembro 10, 2017

      Persistente. Não sei lidar, por exemplo, com feira de filhote. Sou proibida de ir! Bj, querida

      Curtir

  4. Julia Castro
    novembro 12, 2017

    Sempre ansiosa esperando um novo post. Suas palavras são sempre lindas ❤️

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em outubro 18, 2017 por .

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