pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Mas deixei a luz entrar primeiro, todo meu passado iluminei

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Você não vai acreditar, mas o Mercado do Sul fechou. Acho que você nem conheceu, pra você não vai fazer diferença. Sou eu mesma que estou precisando me acostumar com essa ideia. Sou eu mesma que preciso acreditar. É como se te contar algumas coisas, me fizesse elaborar o real.

Passei de carro pela Santo Amaro com Vahia de Abreu sexta-feira. Já tinha visto que o bar da esquina havia fechado, mas só sexta percebi que o tapume cercava também o mercado. Chorei. A Bruna comigo no carro não acreditou. Mandou um áudio na hora pro Lucca e pra Maria.

Sei que torci secretamente pra ser uma ampliação dos negócios. O mercadinho de bairro agora ocuparia a esquina inteira. Hoje tive a confirmação. Passei na frente. A placa pendurada. “Encerramos nossas atividades em 8 de abril de 2017. Agradecemos a todos que estiveram conosco.”.

Chorei de soluçar, embacei meus óculos, gelei por dentro. O Itinha, quando contava da infância no sul, falava do minuano: “É um vento frio e forte que sopra depois das chuvas e que corta a gente no peito.”. Acho que hoje senti.

Com que direito as pessoas mexem assim no nosso passado sem aviso prévio? Eu preciso bem mais do que trinta dias pra cicatrizar. Eu preciso que minhas lembranças não estejam embaixo dos escombros de uma guerra civil sentimental.

Quando mudei pra essa casa, ainda com o porta-malas cheio de bagagens, foi ali que parei pra comprar açúcar, café, sal e canela. Não sei qual amiga da mãe tinha dito que eram esses itens que trariam abundancia pra dentro da nova morada. Na dúvida…

Achei que estaria ali só de passagem. Continuaria a fazer compras no Pão de Açúcar ou no sacolão perto do apartamento. Era um mercadinho de bairro. Um bairro que ainda não era meu.

Sem me dar conta, Do Sul passou a fazer parte dos nossos dias. Entregas em casa, anotar no caderno pra pagar depois, encontrar a erva pro chimarrão do pai no primeiro churrasco que fizemos no salãozinho, comprar o torrone e a goiabada de colher da mãe. Sabe esses lugares onde as pessoas lembram seu nome, perguntam dos filhos e até do Zé de Abreu?

O mercado foi locação do segundo curta-metragem da Maria e os quatro irmãos gaúchos, donos do lugar, nem quiseram cobrar.  Esse registro passou a ser eternizado agora por mais um motivo.

Você sabe como é isso. Lembra do portão de ferro substituindo as grades vazadas que deixavam aparente aquela escultura de elefante no jardim perto da casa da vó Silvinha? A placa de “vende-se” no muro do Dr. Walter? As vidraças quebradas da Edgar discos ao lado da delegacia? O aquário vazio no consultório do Dr. Jacques? A banca de jornal do Moacir e da Lourdes fechada por meses, quase anos e o bate-estaca no lugar das árvores do terreno da nossa rua?

É o fim de uma era. Era uma vez… O que vai me fazer falta é a rotina, o velhinho da entrega apavorado me perguntando se o Indie tá bem preso, as prateleiras e corredores conhecidos, a fachada de tijolos verde-claros. E fechar definitivamente a porta a essa multidão que foi sendo silenciada dentro de cada um de nós.

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2 comentários em “Mas deixei a luz entrar primeiro, todo meu passado iluminei

  1. Maria Luiza Machado Ferraz
    maio 8, 2017

    Alguém já disse: ” Somos balões cheios de sentimentos em um mundo repleto de alfinetes”
    É difícil!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em maio 7, 2017 por .

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