pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Parecia que não ia acontecer com a gente, nosso amor era tão firme, forte e diferente…

mae

Você não vai acreditar, mas a mãe estava ficando cega. Calma, deixa eu te contar como foi.

Há uns seis meses, ela começou a ficar com os olhos irritados, vermelhos. Parecia uma conjuntivite. Foi a uma clínica, a médica examinou e descartou conjuntivite. Recomendou um colírio e deu a receita para novos óculos.

No final do ano, os olhos voltaram a ficar irritados e agora como uma secreção pela manhã. Ela quis voltar em uma clínica que já havia ido uma vez com o pai. Demora no atendimento, assistente inadequada, médica antipática, diagnóstico bombástico após exame rápido. “Sua mãe está ficando cega, você sabia? As córneas estão completamente deformadas, degeneradas, irreversíveis. Não consigo examinar, não consigo ver o fundo do olho. Tá tudo embaçado. Nunca vi uma deformação assim. Tem cegos na família de vocês?”.

Eu que achava que iria sair dali com um colírio antibiótico e ponto. Eu que tentava repassar rapidamente nossa árvore genealógica buscando encontrar respostas. Eu que tinha certeza de que a mãe não precisava ouvir esse diagnóstico em uma sexta-feira ordinária.

“Coisa de meses… Não sou especialista em córnea, então marque um retorno com o médico especialista com urgência.”.

Sai de lá arrasada, meio disfarçando, querendo saber o tanto que a mãe já tinha digerido das informações. “Médica metida, né? E com um perfume horroroso daqueles de dar enxaqueca. ” Cheguei em casa aos prantos, as meninas, doídas, tentaram me acalmar. Como depois de tudo, e tanto, a mãe teria de aprender a ser cega, nessa altura da vida?

Liguei pro Fabio – nosso homem de contatos – e ele me disse que falaria com um amigo oftalmo. “A mãe deveria ter ido nele.” Eu nem sabia que o Fabio tinha também um amigo oftalmo.

Sabe quando você vai fazer uma prova e não sabe nada da matéria? E, por mais que você não queira, aquilo fica rondando a sua cabeça na hora do almoço, no banho, assim que abre os olhos e antes de dormir? Então, foram assim nossos dias até a consulta na terça-feira.

No consultório, a primeira impressão foi ótima. Ele me ignorou completamente e pediu pra mãe contar um pouco do que estava acontecendo – por que será que a gente tende a achar que pessoas, a partir de uma certa idade, precisam de interlocutores e tradutores da sua própria vida, como se eles não estivessem mais ali?

A mãe foi contando o que sentia, enquanto o Dr. Mauro a ajeitava no aparelho. Assim que acendeu a luz, ele falou: “A senhora tem uma lente de contato aqui nesse olho e… no outro também!”

Como assim? Ela ainda usava lente? Aquela lente que comprei há meses? Aquela lente que ela reclamou que não tinha conseguido colocar? Aquela lente que, então, ela tinha conseguido colocar sozinha? Misto de culpa e alívio. Tentava lembrar da última vez que, brincando, perguntei se ela tinha certeza de que não estava usando lente.

“Vai ficar tudo bem com a senhora. Os olhos estão inflamados, naturalmente, mas use esse colírio e nos vemos na semana que vem. Acontece.” Será?

Além de mim e da mãe, duas oftalmologistas não perceberam que ela usava uma lente descartável fora do prazo de validade. Falar que médicos de convênio erram com muito mais frequência, apesar de ser gravíssimo, não é meu assunto principal nessa nossa conversa. Talvez porque o alivio seja maior do que a raiva. Talvez porque haja outras urgências.

A mãe continua cega, Ita, de alguma forma. Não posso julgá-la. Não posso sequer entendê-la. A dor da sua presença ausente deve colocá-la em uma escuridão interna tão grande, que ninguém pode alcançá-la.

Nesse tempo, não sei se percebi que ela foi colocando lentes, tampões, vendas para não te ver assim. Tem dificuldade de caminhar, literalmente, sem você por perto. Não dá mais para cozinhar sozinha, sem ajuda. Mas também, pra quê, se um dos dela não vai poder comer?

Claro que a idade chega para as mães – e tem chegado pra mim também -, mas pra ela não foram degraus descendentes, entende? Ela despencou, rolou a escada interna e não consegue se levantar. Te levantar.

Não é a córnea, o fêmur, a hérnia de hiato ou de disco. É dor. É desistência.

Eu, mimada, fico querendo minha mãe de volta, dona de todos os bailes, passarelas, alamedas, quadras e manifestos. A mais bonita, simpática, de gargalhada fácil. A inesquecível, a acolhedora, a generosa e doce, minha mãe.

Se vira, cara, não dá mais para te ver assim.

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11 comentários em “Parecia que não ia acontecer com a gente, nosso amor era tão firme, forte e diferente…

  1. Raquel Oliveira
    janeiro 23, 2017

    Ah meu coração…

    Curtido por 1 pessoa

  2. Natan Lira
    janeiro 23, 2017

    Olá, Bettina! Conheci o blog por indicação de um amigo. Na época, eu acompanhava a situação de uma tia que dormia, assim como o Ita, depois de um AVC. Ela permaneceu assim por nove dias. Para a minha família e eu, os dias não tinham fim e pareciam ainda maiores enquanto não dormíamos esperando ela acordar. Eu não tive saúde emocional para ler os demais textos. Em outubro, lembrei de blog e li todos os textos.

    A tia Ana acordou, lembrou de todos nós. Riu e nos fez chorar emocionados. Mas era para se despedir. Ela resolveu dormir para sempre. Nestes dias, o Facebook está me lembrando que faz um ano da tormenta, do riso e do adeus.

    Muito obrigado por este texto. Ele é um alento para todos nós, que acompanhamos e torcemos por vocês. Mas, sobretudo, para mim, que encontro consolo nas suas palavras.

    Feliz 2017 para vocês! Que seja o ano do Ita voltar, para receber este amor em palavras. Beijo.

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      janeiro 23, 2017

      Que mensagem linda! Que privilégio da tia Ana ter tido vc por perto! Obrigada, viu? Bj grande e um 2017 bem especial

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  3. Marilda
    janeiro 23, 2017

    Estava com saudades. Feliz ano novo!!
    Ah Bettina, senti uma certeza agonia no seu texto.
    Não fica assim ok. Fica bem e não deixe de nos contar como vão as coisas com a sua mãe, o Ita, seus filhos e especialmente você.
    Um beijo

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  4. neide furlaneto
    janeiro 30, 2017

    ola.. tenho acompanhado seu textos e choro em todos que leio.. pq me coloco no seu lugar… sabe vc tem lido estes textos para o Ita…? fala pra Ele que agora mais que nunca vcs precisam dele, que ele tem voltar, ja descansou bastante ne.? Espero que em breve muito em breve vc escreva que ele acordou.. e que estão todos bem.. um grande bj…. Fala pro Ita que tb mandei um beijo pra ele.

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  5. Thayanne
    fevereiro 1, 2017

    Que saudade de ler você! ♥

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  6. Natália Maciel
    abril 3, 2017

    Do outro lado da tela tem uma pessoa que sempre se emociona com os seus textos… Você relata tudo de uma maneira singular e as lágrimas correm sem avisar.
    Na torcida pelo Ita.
    Um beijo afetuoso

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  7. luciana Scarpante
    abril 11, 2017

    Leio o blog há muito tempo! Minha mãe teve um AVCI aos 49 e ficou 39 dias na uti e mais 60 dias no apartamento! Perdi tudo que eu tinha. Hoje ela tem 61 e não aceita o quê aconteceu. Não é mais a executiva que era, ficou com sequelas de equilíbrio, na fala e não sai de cas. Minha família mora todos no Paraná e eu aos 28 anos na época assumi todas as responsabilidades. Sinto falta dela chegando do trabalho toda feliz, das viagens pelo Brasil que era o trabalho dela. Me sinto sozinha! Nem sei se vc vai entender, pois mesmo ela não estando vegetando ao mesmo tempo parece que está! Perdeu a vontade de viver e não aceita a condição que hoje se encontra. Queria muito conhecer o Ita, pq p mim a alma dele está ali vagando e ouvindo tudo ao seu redor.

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    • bettinabopp
      abril 19, 2017

      Que linda vc, Luciana. E que força em assumir tudo aos 28! Vamos combinar! Ele vai gostar de te conhecer! Bj, querida

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Publicado em janeiro 23, 2017 por .