pra quando você acordar

por Bettina Bopp

O zigue-zague do tormento, as cores da alegria, a curva generosa da compreensão 

imag0033Você não vai acreditar, mas já consigo até ver um sentido no que aconteceu com você. Tenho, claro, um pedaço imenso que sente saudade, dor e incerteza. Mas tem outro, ainda pequeno, que agradece.

O que não nos mata nos torna mais fortes, diz uma expressão. Há coisas que não nos matam, mas nos enfraquecem pra sempre, diz outra. Oscilo entre as duas. Às vezes mais forte com tudo isso que a gente tem vivido, às vezes frágil querendo de volta o que a gente viveu. Presente e passado. E o futuro?

O futuro são meus filhos. Amo as pessoas que eles se tornaram e de como costuram relações generosas diariamente. Tenho certeza de que formação é um trabalho coletivo. De vivências, lugares, pessoas. E dores.

A tristeza – sim, ela faz parte – da sua impermanência, Ita, permitiu de alguma forma que eles pudessem ser quem são. Porque a gente precisa entender o recado da tristeza, para reconhecer as fragilidades do outro, ter a possibilidade de se conhecer e buscar de novo o que é ser feliz. Refresca teu coração. Sofre, sofre depressa, que é para as alegrias novas poderem vir.

Quando pequenos, morarem em um predinho cheio de crianças e jogos coletivos no térreo ensolararam os dias e, assim, iluminaram as ausências.

Depois, o auxílio luxuoso de avós como os deles e a presença ainda de avós como os nossos provaram que tempo, acolhimento e amor de qualidade nunca é demais. Você e o Fabio sempre foram os tios que deram as férias na praia. Metaforicamente, mostraram o horizonte.

Um infantil com arte, música, amoreiras e uma livraria na porta com o Zeco fizeram a diferença. Assim, como uma escola com escolhas – e com a Mariângela, a Silvia, a Lilian, a Denise, a Dri Dip, o Mauricio e o Fernando. E a outra escolha uma escola com a Maria Helena, a Maria Alice, a Valéria, o Wilton e a bagagem que tudo isso traria.

Penso nos meus amigos e amores. E os amigos e amores deles. Pessoas queridas mesmo que distantes. Pessoas erradas mesmo que por perto – ufa, foram poucas –  mostrando também o que não se deve ser.

Agora olhar para eles tão construídos, num desenho sólido, dá muito orgulho. Esses dias, Maria contou a história de uma maquiadora que reconheceu o sobrenome Bopp e perguntou o que ela era da Bruna. Quando soube, a menina disse que há alguns anos foi roubada e perdeu duas malas de maquiagem. Ficou desesperada e sem poder trabalhar.

O acontecimento correu pelas redações das revistas que maquiavam com ela e chegou na Tpm, onde a Bubu era repórter. Sem conhecê-la, e sem contar para ninguém, Bubu enviou para ela um kit completo com produtos, junto de uma carta carinhosa. A maquiadora, surpresa com o gesto de uma desconhecida, espalhou a história entre os amigos e, motivados, eles também começaram a ajudá-la. “Sabe gente que faz o bem sem plateia? Elas existem e sua irmã é uma delas, Maria”, completou a maquiadora emocionada.

Há uns dias, o Lucca foi na Viva conversar com alunos de 10 anos. Isso porque uma das crônicas dele foi lida para um grupo do 5° ano, na aula das competentíssimas Flavia e Carol. Elas estão trabalhando crônicas que tragam reflexões sobre a cidade, sobre o “invisível” do seu dia-a-dia e o entendimento de que todo mundo que a gente conhece está em uma luta particular. Lucca é sensível e bom nisso, em viver a vida procurando os detalhes.

O encontro e a devolutiva não poderiam ser melhores: as crianças fizeram perguntas, trocaram experiências, acharam que durou pouco e querem que essa parceria não se esgote. Já estão escrevendo textos incríveis e vão mandar para o Lucca.

Próximo da estreia, Maria participou de coletivas de imprensa da série. Aqui e na Argentina. A Bubu a acompanhou e, orgulhosa, contou da propriedade da Maria ao falar de feminismo e prostituição. Avessa a protagonismo ou estrelismo, dividiu a importância da diretora e do elenco para se tratar de temas delicados como esses.

Uma das mais experientes atrizes do elenco confidenciou à Bruna: “Sua irmã é uma atriz necessária”. Ao final, Maria, segura e simpática diante do paredão de jornalistas e fotógrafos, fugiu de respostas óbvias.

Parecem prontos, Ita. Prontos principalmente para olhar para o outro, não se importando se o outro é você, a mãe ou o pai, é um desconhecido, é invisível, é criança, é puta ou é a América Latina.

 

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4 comentários em “O zigue-zague do tormento, as cores da alegria, a curva generosa da compreensão 

  1. Rômulo Souza
    outubro 18, 2016

    De uma forma que não sei explicar, tenho muita empatia com sua história e me sinto infinitamente sensibilizado com todos os seus relatos. Você tem um poder incrível de tocar as pessoas, fazê-las reflexionar sobre a vida, sobre o que realmente deveria importar. Acompanho seu blog há um pouco mais de um ano. Continuo emanando (como da primeira vez que vim aqui) vibrações positivas ao seu irmão e torcendo para que você consiga manter sua esperança viva. Que Deus e todos seus guias espirituais estejam ao lado de sua família, sempre!! Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      outubro 21, 2016

      Rômulo, que msg boa de se ler. Fiquei realmente tocada com seu carinho. Obrigada. Um beijo

      Curtir

  2. Marilda Aparecida Augusto
    outubro 20, 2016

    Lindamente escrito como sempre.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em outubro 15, 2016 por .