pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Aquela esperança de tudo se ajeitar

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Você não vai acreditar, mas não sei mais nada sobre ela. Desistimos uma da outra. Não existimos mais como amigas. Nem sei te dizer como isso aconteceu. Enterramos nossas afinidades, desperdiçamos nossa história.

Essas coisas não têm um dia certo. Vão escorregando pra fora da gente e quando você percebe já não se importa mais.

Não sei onde ela mora. Ela não conhece meu jardim.

Não sei se o sobrinho dela virou mesmo arquiteto. Ela não sabe do meu amor por aqueles três do Fabio.

Não sei se ela ainda faz o melhor vitel toné. Ela não sabe que meus filhos são o melhor de mim.

Quanto tempo? Faz tempo, mas não tanto tempo assim. Ela ainda foi ao hospital ver você e foi ao enterro do pai. Choramos um pouquinho abraçadas, mas um abraço burocrático. Não foi no ombro dela que encontrei conforto naquela manhã.

Teve um Natal depois disso. Ela apareceu na sua casa e ajudou a mãe a embrulhar uns presentes. Me ligou dizendo que estava lá, que queria me ver. Não pude ir, nem sei se quis.

Não lembro mais da última vez que ela ligou no meu aniversário. Sei que não liguei no ano passado. Acho que nem no outro.

Lembra quando ela morou em casa? Brinquei de ter irmã nesse tempo. Foi bom. Com poucos laços familiares, sempre foi fácil pra ela partir, mesmo que fosse só pro outro lado da rua. A coragem e o desapego me encantavam e visitei lugares do mundo com os olhos emprestados dela.

Nossa amizade resistiu aos anos que ela morou fora, mesmo sem a existência da internet. Trocávamos cartas e ela viu meus meninos crescendo por fotos semestrais.

Paula, ela e eu éramos um trio. Invencíveis. Achei que estaríamos juntas pra sempre. Escolhi pra madrinhas de casamento e madrinhas de filhos. Mas sem o menor cuidado, ela e eu perdemos a mão da nossa amizade e o tempo passou.

Quando a mágoa é maior que a saudade nada se reconstrói. Pode esquecer.

Onde colocamos as nossas afinidades? O que houve? Onde foi parar a nossa amizade honesta? Será que somos amigos de uma fase, e não somos cúmplices de toda a vida? Será que me enganei? O que era para ter sido já foi, e agora seremos conhecidos, e não mais que isso?

Você sente falta deles, Ita, dos seus amigos? Queria que eles viessem ver você, mesmo que assim? Queria saber deles?

Alguns casaram, alguns tiveram filhos, outros se separam, mudaram, faliram ou ficaram doentes. Confesso que meu coração é seletivo e que consigo entender alguns afastamentos e faltas, mas outros não.

Acho que é porque às vezes sofro por achar que você está sofrendo ou por ver o sofrimento da mãe por esses distanciamentos. Ela repete, quase se convencendo: “Mas o Ita não morreu. Ele tá aqui, nada mudou”.

E se nada mudou, acha que ainda dá tempo pra eu falar com ela? Um e-mail, uma carta, um telefonema? Alguém deve saber onde ela mora. Deve ser em uma casinha amarela, projeto de um sobrinho arquiteto, com uma salamandra de ferro fundido que aquece a sala e uma chaminé por onde escapa o cheiro do melhor vitel toné.

Afinidade é um dos poucos sentimentos que resistem ao tempo e depois. Não importam as impossibilidades, os adiamentos, a distância, a ausência. Qualquer reencontro retoma a relação. (…) É especial porque é eterno! É singular porque tem razões que fogem à razão. Não tem explicação porque é chão que só se pisa com o coração.

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27 comentários em “Aquela esperança de tudo se ajeitar

  1. Marcelo
    fevereiro 29, 2016

    É….falar o que desse texto =) Muito bom, muito bem escrito, gosto muito de ler o que vc escreve. Se um dia lançar um livro eu vou querer ler. Parabéns e uma ótima semana pra vc.

    Curtido por 1 pessoa

    • Eduardo Matosinho
      março 17, 2016

      Marcelo, a Bettina tem um livro. Veja abaixo:
      A Lenda das Três Laranjas – (8564571080)
      Autor: Bettina Bopp, Ana Guima
      Editora: ÔZÉ EDITORA
      Ano de Edição: 2011
      Nº de Páginas: 32
      Um abraço,
      Eduardo

      Curtido por 1 pessoa

      • bettinabopp
        março 27, 2016

        Meu amigo querido, ando em falta com vc! Seu carinho sempre me alimenta. Beijo grande

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    • bettinabopp
      maio 26, 2016

      Marcelo, sóhj percebi que minha resposta não foi. Desculpe. Vou querer muito que leia. E vou ficar mais uma vez feliz!

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  2. Gisele Esteves Prado
    fevereiro 29, 2016

    Sabe, Bê, eu acho que uma amizade nunca morre e se você lembra de tantos detalhes é porque não morreu em você também. Sou sempre a favor de procurar, rever, reencontrar. Nós éramos tão próximas na faculdade e hoje estamos separadas pela serra do mar… mas no coração, ao menos pra mim, nada mudou. Somos capazes de nos encontrarmos e termos horas de papo pra colocar em dia.
    Meu marido ficou distante de um amigo de infância durante anos a fio e eu fiz que ambos se reencontrassem, que ele conhecesse seus filhos, sua casa. Deus não quis que ficassem juntos por muito tempo, seu amigo partiu de forma triste com um tumor cerebral. Hoje, passados muitos anos de sua partida, continuamos a fazer parte da vida de seus filhos e em abril ele será padrinho de casamento do filho mais velho do amigo… Ele o convidou porque disse que seu pai sempre dizia que o Álvaro era o melhor amigo dele. Desde que ele se entendia por gente ouvia seu pai dizer isso, mesmo quando eles não se viam fisicamente.
    Procure sim sua amiga e se o silêncio pesar, você terá tentado e seu coração estará em paz.

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    • bettinabopp
      maio 26, 2016

      Gi, querida, hj percebi que minha msg não foi ❤ Que história linda! Obrigada por me contar! E a nossa amizade é assim. Anos sem nos ver e num minuto retomamos tudo como se fosse os corredores da PUC. Te amo!

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  3. Maria Luiza M Ferraz
    fevereiro 29, 2016

    Bettina, me arrependo hj em dia de não ter buscado, insistido, procurado mais algumas pessoas. Não sei se teria havido correspondencia, mas me arrependo de não ter tentado.Bj

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    • bettinabopp
      maio 26, 2016

      Só hj percebi que minha msg pra vc não foi. Desculpe! Penso assim também…bj

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  4. Marilda
    fevereiro 29, 2016

    Olá, eu estava com saudades…. demorou…. mas sempre vale a pena, esse seu texto representa tanto e tanta gente, eu mesma me identifiquei, é isso mesmo perdemos as afinidades e vamos nos distanciando de tal forma, fazemos contatos burocráticos, cívicos até para manter o minimo de civilidade, mas ai um dia a gente se enche até disso e para de procurar, para de pensar, simplesmente para…. agora ficou a pergunta será que é assim mesmo que as coisas são… deu uma saudades dos meus velhos amigos… será que ainda dá tempo…??? Vamos tentar??? Beijo no seu coração e no do Ita tbm…

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  5. Henri Galvão
    fevereiro 29, 2016

    Texto incrível, a começar pelo título. Vivo uma situação parecida com um amigo que vive um tanto distante em mais de um sentido. A impressão é que se eu não fizer nenhum investimento (que é cada vez menor), a história termina por ali mesmo. Me bate a tristeza e, ao mesmo, me faz pensar se algum outro amigo que deixei pelo caminho sente essa mesma mágoa a meu respeito. Sinceramente, espero que não.

    Talvez você já tenha lido o texto “Regrets of the dying”, de Bronnie Ware. Ela trabalhou como enfermeira, e diz que um dos cinco principais arrependimentos dos pacientes terminais é justamente deixar uma amizade ir embora. Caso não tenha lido o texto: http://bronnieware.com/regrets-of-the-dying/

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  6. Izabel Ribeiro
    fevereiro 29, 2016

    Lindo e comovente esse texto, me fez lembrar a frase de um filme que nem lembro mais o nome, mas lembro a frase: ” nunca mais tive amigos como os que tive quando tinha 12 anos. Meu Deus, e alguém os tem?!”

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  7. Denise
    fevereiro 29, 2016

    Sempre vale a pena. Amo você

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  8. Jussara Carvalho
    fevereiro 29, 2016

    Meu Deus, estou aqui lendo o seu texto com os olho cheios de lágrimas, que saudades que me deu da minha amiga Ofélia, e eu sei onde ela mora, vou procura-la.
    Faça isso também, acho que o Ita vai gostar, procure a sua amiga, sempre é tempo para retomarmos as pessoas que um dia amamos e quem sabe o amor pode voltar. Pelo menos tente, eu tenho quase certeza que vai ser muito bom. Vou procurar minha amiga Ofélia.
    Muito obrigada pelo alerta, porque foi assim que eu tomei esse texto pra mim, um alerta pra cultivarmos sempre as nossas amizades.
    Beijos, pro Ita também.

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  9. Maria Luiza Ferraz
    março 1, 2016

    Esse texto tb me fez lembrar amizades que deixei partirem. É triste. Se fosse possível recomeçaria. Acho que vc deveria tentar. Um gde abraço.

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  10. Melissa
    março 7, 2016

    Me recordei de uma grande amiga que trago no meu coração, pq pessoalmente faz muito tempo que não á vejo…quanta saudade, acho que vou procura-la, obrigada pelo incentivo..bjos

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  11. Anna Claudia Göergen
    março 9, 2016

    Não é tarde, nunca é para um amigo. Folhas do calendário que passaram, mágoas que se solidificaram são capazes de sufocar uma amizade. Mas luta contra ela! As pessoas mudam, mas se o que fortaleceu a amizade de vocês ainda existe (e eu acredito que exista!), com certeza um telefonema vai fazer tocar também o coração de vcs..

    Curtido por 1 pessoa

  12. Steiger
    março 12, 2016

    “Amigo não é quem ajuda a matar, é quem ajuda a esconder o corpo”. Se essa for a amizade que ajudaria a esconder o corpo, pq não ir atrás?

    Curtido por 1 pessoa

  13. Cleber Siqueira
    julho 19, 2016

    Olá Bettina, que imenso prazer conhecer sua força, sua perseverança e seu controle emocional. Eu não conhecia sua história e hoje, por acaso, ela caiu em meu colo. Um presente pra mim!
    Na verdade, esse espaço eu deveria (ou poderia) usar para falar de seu irmão, afinal, é dedicado a ele. Mas o que falar? Eu não o conheci, e o que sei e ainda vou saber será por suas palavras. Posso, no máximo, dedicar-lhe minhas orações e pedir, muito antes de desejar que acorde, que Deus seja generoso com ele. Que lhe dê paz, amor, conforto e entendimento, e que se for Sua vontade que seu irmão volte ao convívio da família interagindo.
    Poucos dias atrás, com a ajuda de Deus, eu terminei um livro. A história de um menino deficiente que sofre preconceitos, mas tem amor e entendimento dentro de casa, motivos que o fazem crescer e superar cada dia. Argumentos que o fazem, além da superação, a ajudar aqueles que passam pelo mesmo problema. E é assim que mesmo aos 9 anos ele encontra o amor… de uma menina de 11 que se trata com quimioterapia. Mas porque estou falando disso? O livro ainda está em análise, e nem sei se vai vingar. Estou falando porque na história de Fernando e Fabiana, eu exorcizei boa parte da minha história. Dei a cada personagem o nome de cada pessoa que foi importante em minha vida. E a quem não dei o nome, dei um elo de ligação, como no caso de meus filhos, esposa e pais. Meus amigos, mesmo os esquecidos ou os que se distanciaram, como no seu caso, foram homenageados com nomes dos personagens e com pitadas de histórias reais que se passaram em nossas vidas. Eu chorei muito enquanto escrevia o livro, e mais ainda ao final da história. Mas sabe que senti uma emoção e uma gratificação muito grande? Não sei se o livro vai vingar, mas tenho certeza que além da minha mente e de meu coração, as pessoas de minha vida agora estão imortalizados na história de Fernando e Fabiana.
    Apesar da desistência de uma com a outra, do fato de ela não conhecer seu jardim, e porque talvez vocês nunca mais se vejam, essa distância que existe entre você sua amiga é apenas física, e, me desculpa a pergunta, mas você sabe o tamanho da importância dela em sua vida, não é?! Afinal, você dedicou-lhe uma parte do diário de seu irmão. É verdade, talvez vocês nunca mais se vejam, mas uma sempre terá um espaço gostoso dentro do coração da outra. De todo coração, mesmo não os conhecendo, desejo que tudo de bom aconteça na vida de seu irmão, na sua… e de sua família.

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      julho 21, 2016

      Que linda história: do livro e a sua. Mais linda ainda é sua generosidade em compartilhar com a gente. Também foi um imenso prazer ter vc por aqui! Avise do livro! ❤

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Publicado em fevereiro 29, 2016 por .