pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Embaraçam as linhas da minha mão

estreitos nós

Você não vai acreditar, mas quando a gente morre, as últimas coisas que desaparecem são as impressões digitais. Esse desenho das linhas das mãos e dos dedos são únicos, perenes e imutáveis. E por serem únicos, são o registro da nossa identidade.

Quando a Bruna foi renovar a carta de habilitação, a atendente do Poupatempo perguntou se ela usava muito o computador. Bruna respondeu que sim, por ser jornalista. A menina completou dizendo que por isso então que as impressões dela estavam desaparecendo.

Isso não era verdade, já que li que as impressões se regeneram. Mas fico pensando se, de alguma forma, estamos mesmo desgastando e fazendo desaparecer a nossa identidade através do acesso a esse mundo virtual.

Que lugar é esse das redes sociais? As pessoas criam perfis falsos, assumem ser outras pessoas, simulam novas identidades. E por trás da trama virtual, espionam, ofendem, machucam o outro. Destilam o ódio, o preconceito, o horror. Que doença real!

Bauman é certeiro quando diz que vivemos tempos líquidos, quando nada é feito pra durar. Nem mesmo a identidade? Ela também precisa ser redefinida por causa da fragilidade das relações humanas?

É com o tempo que a gente vai construindo a própria identidade. Nascemos só com as linhas e tecemos com as mãos as relações. Bordei quem sou sendo irmã de vocês, filha deles, neta de quem fui.

Amarrei cadarços entre meninos e meninas do Jockey e seguro alguns nós até hoje. No Palmares costurei amores e amigos pra sempre. Alinhavei minha vida profissional por estar ao lado dos grandes do Gávea.

E os laços mais fortes aperto com meus filhos diariamente.

Sei que há cortes enviesados que machucam – e por eles você tem de reinventar seu desenho. Como quando você decidiu ser um homem invisível e minhas linhas ficaram tortas, soltas, apagadas. Tive de tentar me customizar, pra finalmente eu me identificar. 

Hoje sei que você é ainda você. Mesmo sem palavras. Mesmo sem gestos. Mesmo com uma pele tão lisinha que esconde as linhas dos seus dedos. Mesmo não conseguindo mais segurar a minha mão.

Sua Identidade está guardada comigo, mas com partes amassada e descoladas. Precisei fazer uma cópia autenticada – agora sou sua curadora.

Em tempos líquidos e virtuais – e também tão reais – precisamos redefinir quem somos pela circunstância. Mas não pela fragilidade da nossa relação ou da nossa identidade, Ita. Essas são únicas, perenes e imutáveis.

Porque éramos nós estreitos nós. E ainda somos.

estreitos nós 2

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8 comentários em “Embaraçam as linhas da minha mão

  1. Marcelo
    novembro 9, 2015

    Que texto hein, muito bom! Obrigado por compartilhar essa historia.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Cinthia Alves
    novembro 9, 2015

    Adoro acompanhar tudo o que você escreve !!!!!!!!
    Bjs

    Curtido por 1 pessoa

  3. Karoline
    novembro 25, 2015

    Olá! Achei seu Blog pela matéria na Globo.com. Ainda não li todas as postagens, por mais que essa seja minha vontade agora, devorar o blog todo! Sou apaixonada por leitura, e por escrita. E vc escreve tão bem! Seus textos unem a poesia que já nasceu com vc, com o amor tão desmedido que vc tem pelo seu irmão e por todas as outras coisas. Vc enxerga o mundo de um jeito parecido com o meu, e vc sabe exteriorizar isso muito bem, o que eu já não consigo… Sei disso pq, ao ler seus textos, eu vejo como chega tão perto do que eu sinto e penso, é como se eu mesma estivesse conseguindo colocar em palavras tudo exatamente como passa aqui dentro. Enfim, loucura! Senti uma identificação enorme com vc, sem nem te conhecer (além de alguns textos). As suas palavras e as fotos da sua família me remetem à minha infância, não tão distante no calendário, mas a mil léguas do que o mundo se tornou hoje.

    Não consigo me explicar mais que isso, só não queria deixar passar em branco tudo o que se coloriu aqui dentro quando conheci seu blog.

    Parabéns e obrigada!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Gabriela
    novembro 25, 2015

    Simplesmente emocionante o seu blog.
    Lindo demais… Amei…

    Entender, que só mesmo o próprio tempo
    Nos dará, todas as respostas
    Não é fácil, prosseguir apagando da memória
    Tudo aquilo que fez a nossa história
    Nossa vida de novo começar…
    Música: Recomeçar – Tânia Mara

    Um bjo pra você e pro Ita. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em novembro 8, 2015 por .