pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Um relicário imenso deste amor

relicário

Você não vai acreditar, mas o Lucca ficou muito sensibilizado com a obra de uma artista. Nela, sapatos femininos de mulheres desaparecidas durante a guerra civil colombiana estão expostos em nichos nas paredes. Cada nicho é coberto por uma folha de pele de animal. A imagem é opaca, mas translúcida.

Lucca foi ao MoMA – e talvez seja outra coisa que você não vai acreditar. Ele é claramente das outras Artes, as meninas que frequentam mais museus. Ainda assim, ele foi, gostou muito e me escreveu sobre a Atrabilious – esse é o nome da obra de Doris Salcedo. “É muito bonito e emocionante. Pra mulheres sequestradas eram só sapatos, calçados no dia a dia. Pras famílias, depois que elas desapareceram, os sapatos assumiram outro significado. Falam da identidade delas, como se fosse uma assinatura, uma marca que deixaram.”

Quando o pai morreu, convenci a mãe a doar, junto das roupas dele, as suas também. Disse que você é vaidoso de um tanto que não vai querer usar as roupas antigas. Ela concordou e deu a maioria. Algumas ela não conseguiu. Confesso que também não. Guardei aquela camisa xadrez que o Fabio te trouxe, o casaco impermeável amarelo, a parka azul marinho, a mochila enorme de couro, os sapatos… ah, os sapatos! Perfumes começados e vidros vazios. Algumas agendas antigas. Gosto de olhar sua letra. Gosto de como escreve “Ita”.

Eu estou às voltas com você essas duas últimas semanas. Primeiro porque estava chegando seu aniversário. O décimo já dormindo. Me incomodei. Algumas datas e dias me machucam especialmente. E então questiono, não acho justo, me afasto e me calo.

Depois, porque você está com pneumonia e vai passar o aniversário longe de casa, no hospital. E então mais uma vez questiono, não acho justo, me aproximo e me calo.

Assim como as mulheres desaparecidas na guerra civil colombiana, você está em algum lugar entre a vida e a morte. Nem presente, nem ausente. Nem aqui nem em outro lugar.

Nunca fomos capazes de viver nosso luto, pois isso significaria que a nossa esperança estaria abandonada. E assim, vivemos lutos possíveis, nos despedindo de você e das suas coisas. Quando te ausentas, busco teus olhos em todos faróis. Vagando nas ruas, olhando os risos. Preenchendo os dias vazios com fantasias de estar sempre a te ver!

Outro dia a mãe estava revirando caixas de fotos. Em uma delas, junto de moedas sem valor, carretéis sem linha e santinhos amassados – sim, essa ainda é a mãe – encontrei um bilhete seu, daqueles que você colocava na porta do quarto: “Pai, me acorda às 6:30. Beijo, Ita.”.

Você está atrasado, já passou da hora. O pai nem está mais aqui.

Acorda, Ita. Para esquecer todos os dissabores, refazer todas as lembranças de ti e não sentir mais saudades de mim!

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12 comentários em “Um relicário imenso deste amor

  1. Priscila
    outubro 21, 2015

    Eu não carrego esse peso de viver entre dois mundos: um possível olá, um breve adeus. Na minha vida quem foi, foi; quem está aqui, aqui está. Fico pensando em vcs, no Ita…nem os conheço, mas que coisa essa que a gente tem em comum: o amor. No fundo, parece que todo mundo só quer amar e ser amado…e disfrutar disso. As vezes, me pego pensando: Será que ele sabe que existem pessoas que como eu, não teriam motivos pra derramar lágrimas com uma história da qual não fazemos parte, mas as lágrimas jorram? Jorram em ver este sentimento tão sublime, e diferente de um filme onde eu também não sou atriz (e quando acaba ele se perde em mim), a vida de vcs ecoa entre vibrar com as recordações carinhosas, esperar um dia em que vc escreverá que ele voltou ou de um dia em que eu me nublarei se ele decidir ir. O amor de vcs me alimenta e torço muito para que um dia ele possa voltar a ser vivido no cotidiano. Envio a vcs o melhor de mim. Com carinho.

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  2. Josephy Almeida
    outubro 21, 2015

    Ita, esperando pelo dia em que você vai escutar o despertador e acordar para ler este e todos os outros lindos textos que sua irmã escreveu. Vê se não demora. Bons sonhos e boas vibrações de um Zé que nunca te conheceu mas que torce muito por você!

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  3. Graciete
    outubro 21, 2015

    … “às vezes, tudo o que você precisa é abaixar a sua cabeça e fazer uma oração e resistir à tempestade”. A cada dia me surpreendo com tamanha força que vocês tem… e é isso que vocês e o Ita têm feito desde então… Tem um mundo de gente querendo que ele desperte, que ele volte e conte como foram esses anos aqui e ali, no Céu e na Terra.
    Muitos dos posts Betina, a gente se emociona e chora junto, sentindo a mesma dor… e quando acompanho os comentários dos que conviveram com ele e a gente percebe o grande amor, falando do que poderia ter vivivo e a esperança de poder reviver momentos à dois, de mostrar um mundo novo, aproveitar mais e mais a companhia um do outro, mais que a gente deseje que este dia chegue logo.. já falei anteriormente, que a gente não sabe os desígnios de Deus e que Ele sabe todas coisas, então, só nos resta esperar, fazer a oração e resistir… Que o Ita se recupere desta pneumonia e que volte logo pra casa. Beijo no coração de vocês!
    Gracy

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    • bettinabopp
      novembro 12, 2015

      Graciete querida, desculpe a demora na resposta! Seus posts são sempre tão carinhosos, me emociono! o Ita tá em casa, bem, e recebendo esse amor que chega de pessoas como vc! ❤

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  4. Tininha Loureiro
    outubro 22, 2015

    “Nunca fomos capazes de viver nosso luto, pois isso significaria que a nossa esperança estaria abandonada.” sempre senti assim… mas ai a vida passou…e ele não estava aqui… meus gêmeos cresceram, me separei, tive minha baixinha sozinha… autos e baixos… como todos… tanta coisa… tantos momentos não vividos juntos… saudades do que não aconteceu… Tenho muito poucos amigos e com a intimidade que eu tinha com o Itamar, acho que nenhum depois dele. A vida atropela agente e nem senti os 10 anos passarem.. Saudades!

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    • bettinabopp
      novembro 12, 2015

      Ita ama você, Tininha! Lembro de conhecer seus gêmeos com ele! Fofos, ainda no berço! Falta a Rafa! Bjok

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  5. Eduardo Barbosa Barros
    novembro 25, 2015

    Parabéns por todos os seus textos, cada linha é mais emocionante que a outra. Seu amor faz a gente refletir no quanto somos egoístas. Continue.

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  6. Valeska
    novembro 26, 2015

    Olá, conheci o seu blog hoje, numa matéria do site Yahoo e queria parabenizar-lhe pela sua sensibilidade, não é fácil lidar com essa dor. Fiquei muito emocionada… Não posso dizer que vivi a mesma situação, exatamente, mas perdi o meu avô há 11 meses, ele passou os últimos 7 anos da vida dele lutando contra o alzheimer, os últimos 3 anos acamado, totalmente dependente, cheio de escaras e dores, e considerado “insconsciente”. Por isso compreendo um pouco quando você diz que nunca foi capaz de viver o luto… Ao longo desses 7 anos, meu avô deixou de falar, sorrir, andar, movimentar-se e reconhecer-nos…enfim… diziam para mim que ele não entendia quem eu era ou o que eu falava com ele, mas ainda assim eu falava… Contava as novidades, perguntava como ele estava, comentava o capítulo da novela…e sempre que o encontrava acordado, olhava bem fundo nos olhos azuis dele para memorizá-los bem, podem me chamar de louca mas eu senti que ele me reconhecia, de alguma forma ou de outra… Hoje sinto que esses 7 anos me permitiram ir guardando cada detalhe e me despedindo de cada um deles, devagarinho, sem que isso fosse realmente necessário…Assim como você, eu me recusei a viver o luto enquanto eu podia compartilhar a vida com ele, por isso entendo e admiro o seu blog, seus textos e seu amor por ele. Quisera eu ter conhecido sua página antes… Muita luz pra você, seu irmão e toda sua família, que Deus os abençoe.

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    • bettinabopp
      novembro 27, 2015

      Que lindo, Valeska! Seu avô deve ter se sentindo muito amado esses 7 anos! Um beijo

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Publicado em outubro 20, 2015 por .