pra quando você acordar

por Bettina Bopp

 Existirmos: a que será que se destina?

human

Você não vai acreditar, mas tenho medo. Tenho medo do que a gente deixa pra depois. Tenho medo do que a gente vai deixando de sentir. Tenho medo do que a gente vai se tornando com o tempo.

Tem dias em que não entro no seu quarto. Fico lá embaixo com as crianças, com meus filhos, com a Dani, com o Fabio, com a mãe. Almoço, converso, brinco, dou risada, vou embora. Acho sempre que vai ter outro dia pra estar com você.

Por falar nisso, preciso ler o blog pra você. Tanta gente já me falou, sugeriu. Falei que iria. Não comecei. Defino o tempo e acredito que tenho controle sobre ele. Nesse tempo, você não existe.

Uma vez por semana quero ter um tempo pra fazer um trabalho voluntário. Contar histórias em um hospital. Ou cantar (?) com os meninos em um asilo. Ou quem sabe participar de um projeto bacana da Justiça de SP que procura pessoas dispostas a dedicar uma hora da semana pra conversar, ir ao cinema, passear com meninos e meninas em situação de abandono. O projeto seleciona e prepara pessoas que queiram “ser pais” por uma hora de crianças e adolescentes com mais de 10 anos e poucas chances de conseguir uma família adotiva permanente.

Se não me engano trabalho voluntário era uma das minhas metas pra 2015; certeza que era pra 2014. Ou também pra 2013? Entramos em outubro, o décimo mês do ano, e ainda não comecei. E nem sei se vou começar. Porque sei que amanhã encontro urgências na minha frente: é a troca do óleo, é o transito, é a leitura sobre o político ladrão ou o post sobre a falência de um país.

E depois têm as provas, o fechamento do bimestre, o supermercado da minha casa e da sua casa, a fila do banco, o pagamento da conta. A resposta do e-mail do advogado, a reunião marcada, a conversa com o médico da mãe.

Tenho também a vontade e a necessidade de não fazer nada por pelo menos uma hora do meu tempo. E nessa uma hora que tinha pra não fazer nada nessa semana vi o documentário Human, do cineasta Yann Arthus-Bertrand. Ele passou três anos viajando por 60 países e conversando com pessoas para entender qual é a essência e o significado da vida humana. E registrou histórias de vida de 2 mil mulheres e homens em 200 depoimentos.

A primeira parte trata de assuntos como o amor, a condição da mulher no mundo, as relações de trabalho e a pobreza. Pobreza é aquilo que a gente nem imagina o que seja. Em um depoimento, um homem diz: “eu sou pobre. O que é a pobreza para mim? É quando preciso ir à escola, mas não posso ir. É quando preciso comer, mas não posso. É quando preciso dormir, mas não posso. Quando minha mulher e meus filhos sofrem. Não tenho nível intelectual necessário pra sair dessa situação. Eu me sinto pobre no corpo e na mente.”

Então encontrei tempo – e como não? – e vi a parte 2 e 3 do documentário. Guerra, perdão, homossexualidade, família, felicidade, educação, deficiências, corrupção e o sentido da vida são os assuntos dessas outras partes.

Surpreendente, impactante, verdadeiro.

Não que a gente já não saiba daquilo tudo, das injustiças, das contradições, das diversidades ideológicas de ricos e pobres, negros e brancos, cristãos e muçulmanos etc. Mas toda essa sabedoria vai ficando num fundo do armário, na posta-restante, milênios, milênios no ar.

Não dá mais. Há urgências. Tem um menino de dez ou doze anos que nunca teve a oportunidade de ir a um cinema e conversar sobre um filme – ou sobre – a vida por uma hora. Tem alguém em um asilo que não recebe visita há uns meses ou anos e pode só querer cantar em alguma tarde. Tem alguém em algum lugar querendo ouvir uma história e esquecer do que virá.

Atrás do computador, não vou consertar a política, o país, o mundo. Só constatar ou reclamar é pouco. Muito pouco. Se eu quero mudar, tenho de ser um elemento de transformação. Tudo importa, tudo conta, tudo afeta todo resto.

E amanhã, Ita, começo a ler o blog pra você. Me espera.

Obs: Os links do documentário. Um beijo, Dr Iran.

https://www.youtube.com/watch?v=TnGEclg2hjg   

https://www.youtube.com/watch?v=ZJ3cImzjNps

https://www.youtube.com/watch?v=w0653vsLSqE

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6 comentários em “ Existirmos: a que será que se destina?

  1. Larissa Sousa
    outubro 5, 2015

    Já leio seus textos há um tempo. E sempre me emociono.
    Fico pensando que essa espera pelo Ita tem permitido a vocês um crescimento forçado, mas ao mesmo tempo necessário.
    Muita admiração por você, pelo quanto tem transformado essa situação numa oportunidade de repensar a vida.
    Grande abraço!

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      outubro 5, 2015

      Sim, querida, é isso mesmo! Crescimento forçado, dolorido, mas hoje já consigo ver luz…As mensagens como a sua me ajudam e fortalecem! Beijo

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  2. Raquel Oliveira
    outubro 6, 2015

    O amanhã é muito incerto… Eu sempre pensava: “Preciso levar meu pai para a praia, mas depois vejo isso, porque amanhã eu estarei em condições melhores e poderei proporcional muito mais coisas. Teremos todo tempo do mundo…” E quando caiu a tarde de uma terça feira qualquer, meu pai decidiu que era hora de partir, mesmo com 46 anos, mesmo eu devendo uma viagem para ele, mesmo sem conhecer os netos, mesmo sem ter usado a camiseta que eu trouxe na última viagem que dizia: “Meu pai, meu herói”. Quem eu achava que era para julgar quanto tempo ainda teríamos?
    Aprender que o tempo pertence somente a Deus tem sido uma lição diária, amanhã talvez eu não tenha quem levar para a praia.
    Um beijo e muita luz!

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      outubro 6, 2015

      Que lindo, Raquel! Obrigada por compartilhar! A frase da camiseta estava tatuada em você! E então ele viu! Bj

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  3. Cinthia Alves
    outubro 19, 2015

    ahhhhh …
    Não sei ´escrever bonito´como vocês…
    Mas adoro ler ! E desde que encontrei seu blog, acompanho !
    Entro na sua historia, na sua cabeça e coração ! Parece que vivo tudo junto ! Esse que acabei de ler, e diz do trabalho voluntário, me vi falando ….eu tenho trabalho externo, interno, filhos, cachorro, casa … e tem alguem, que precisa de 1 hora para conversar….que eu ´gasto´ no facebook ….
    Estou esperando o que ? quem sabe quando eu não puder mais ler, se esse dia chegar, vou ter alguém para ler e contar histórias para mim ???

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      outubro 19, 2015

      Que lindo, Cinthia! A gente vai deixando umas coisas pra daqui a pouco mesmo! Obrigada pelo carinho e pela mensagem! Bj

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Publicado em outubro 4, 2015 por .