pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Eu protegi teu nome por amor

casamento fabio

Você não vai acreditar, mas quase atropelei um beija-flor. Não, não foi agora. Já faz um tempo, mas acho que alguns acontecimentos definem a vida de uma pessoa.

Foi assim: entrei no estacionamento ao lado da escola e vi o que parecia ser um papel queimado rolando no ar, bem baixo. Caiu perto da minha porta, ao lado do pneu. Pensei que era um picomã. Picomã era aquela fumaça em pedaços que voava quando queimavam o canavial em Santa Rita, lembra?

Desci do carro e percebi que era um passarinho. Vi a asa estendida, mas não dava pra ver a cabecinha. Abaixei pra pegar, com o manobrista aflito atrás de mim querendo saber se eu sairia logo ou se ele poderia colocar o carro no fundo. Naquele momento, não me importava. Eu tinha nas mãos um beija-flor.

Achei que ele havia morrido, mas não. Estava com os olhos fechados, mas respirava bem devagar. Virei pro manobrista e disse: “É um beija-flor!”. Ele me respondeu “Vai lavar hoje?” Percebi que não era um dia que falaríamos a mesma língua.

A rua da Viva parece mais um corredor de dentro da escola na hora do almoço. São muitos pais, crianças e professores descendo ou subindo, entrando ou saindo. Passei pelas pessoas meio alheia, cumprimentando rápido, querendo salvar o beija-flor.

Tinha nas mãos um segredo e não queria me separar dele. Talvez as crianças quisessem pegá-lo, talvez algum inspetor pudesse ficar com ele pra eu dar aula. Mas aquele encontro era nosso. Não é todo dia que se pega um beija-flor.

Eu não quis dividi-lo com ninguém. Levei pra sala – eu ainda tinha um tempo antes de começar a aula. Enchi uma tampa de água e coloquei perto do bico. Um fio de língua apareceu pra fora. Esvaziei uma lata de lápis e coloquei o beija-flor lá dentro. Pensei em encher com as folhas da planta do vaso da porta, mas me achei incapaz de ter a sabedoria infantil em fazer ninhos improvisados em caixas de sapato.

Meu beija-flor não gostou da lata, porque logo tombou com a cabeça pra baixo. Peguei de novo nas mãos, com medo dele ter morrido. Respirava ainda mais devagar, com os olhos fechados.

Estava combinado: um beija-flor moraria na minha mão pro resto da vida.

Fiquei ali parada, segurando a insustentável leveza do ser, precisando olhar firme pra ter a certeza que eu ainda carregava alguma coisa, porque de tão pequeno e frágil, meu beija-flor parecia não existir.

As crianças já começavam a subir. Escolhi um lugar no vaso pra escondê-lo e então ele voou. Assim, sem avisar.

Sabia que o beija-flor tem um coração enorme? Sabia que o colorido das asas é por causa da refração da luz nas penas? Sabia que o beija-flor cai em um sono profundo, quase hiberna? Sabia que ele protege com fúria o ninho? E, olha só, sabia que o beija-flor canta, mas o som é tão agudo e rápido, que o ouvido humano não consegue escutar?

Falando em escutar, ontem o Fabio fez uma seleção de músicas antigas pra subir no seu quarto e ouvir com você. Pergunta se eu queria subir e ouvir junto? Mas achei que seria um momento só de vocês.

É que quarta-feira completa dez anos do seu sono, Ita. E que talvez a realidade seja mais dura e triste do que a gente queira ver: uma pessoa em estado vegetativo persistente já há uma década. Essa pessoa, nosso irmão.

Milan Kundera escreveu que quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de peso faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar (…) e que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

Escolho a leveza do peso. Escolho significados. Você é meu irmão com um coração enorme e agora tão frágil que tenho medo de não existir. Você dorme um sono profundo. Talvez fale, mas não tenho um ouvido treinado pra escutar. Você tem luz e, embora sutilmente, espalha sementes por ai. Aprendi com você e por você a defender com fúria nosso ninho. E esperar. Porque não é a todo o momento que se tem um beija-flor nas mãos.

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14 comentários em “Eu protegi teu nome por amor

  1. Eduardo Issa
    setembro 14, 2015

    Lindo texto….

    Curtido por 1 pessoa

  2. lucia ines
    setembro 15, 2015

    Bettina, te conheço de nome, pois trabalhei com seu pai Dr. Itamar, a 31 anos atraz, por isso sei quem voces são. Hoje moro em Mirassol. Fiquei muito chocada em saber o que aconteceu com seu irmão, mas não sabemos e nao entendemos os propositos de Deus para nossas vidas… Parabens pelo blog, e torço para que um dia ele acorde e possa ler, tenho certeza que que vai se orgulhar muito de voce, tanto quanto, acredito, sua familia se orgulha. Muita força pra voces.

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      setembro 16, 2015

      Nossa, Lucia Inês , gostei muito do seu contato! Obrigada pelas palavras! Um beijo!

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  3. Lucinha
    setembro 16, 2015

    Que lindo texto .Parabens me emocionei bjs

    Curtido por 1 pessoa

  4. Deborah
    setembro 29, 2015

    Lindo Blog
    Com certeza seu irmão vai amar muito sua atitude!!
    Beijos para todos

    Curtido por 1 pessoa

  5. Stella
    outubro 20, 2015

    As vezes somos atraídos para ler coisas na internet que nem sempre sabemos o motivo. Um amigo ama seu irmão (baroni)… marcou vc numa publicação. Lembrei de conversar com ele ha 10 anos sobre sua família e tristes acontecimentos. Entrei no seu perfil e caí nesse texto lindo.
    Não nos conhecemos pessoalmente, mas já sei que o “coração grande” deve ser coisa de família. Vc também o tem.
    Depois de 10 anos, poucos são aqueles q se dedicam aos amigos ou parentes acamados. Conheci muitos casos assim, pela minha profissão, mas o desgaste afasta. Pelo pouco que li, vc não se afastou. E ao contrário do que pensa, tem sim ouvido treinado para escutar. Se ele pudesse falar, pediria exatamente o que vocês já dão, amor, música, dedicação e a esperança, de vcs nunca desistissem. A esperança nos move!
    Parabéns pela dedicação e pela forma linda de expressar em palavras o amor que sente pelo seu irmão.
    Deu vontade de ligar para os meus para dizer o quanto os amo.

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    • bettinabopp
      novembro 9, 2015

      Stella, que palavras de encher o coração. Baroni é mesmo um querido! Muito obrigada! bj

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  6. Gisele
    novembro 25, 2015

    Lindo! Emocionante o blog e a luta de vcs#!!!

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  7. Laís
    novembro 26, 2015

    Olá Bettina,

    Realmente a sua história comove e nos enche de amor.

    Sinceramente as pessoas não fazem ideia de muitas coisas na vida, você pode até ter as dificuldades e tristezas da situação mas nunca desistiu, isso com toda certeza move alguma força acima da humanidade para que um dia tudo fique bem!!

    Você deveria fazer este diário ao lado dele, pois a emoção e o amor move o ser humano mais bruto, imagine ele que deve estar sensível a tudo ao redor, acredito que a medicina diga coisas certas e sem suposições mas eu acredito que na vida os propósitos são outros e nem sempre visíveis ao nosso olhar!!!

    Espero que você conte nos um dia como foi ler as histórias para ele, pois a gente sempre acorda de um sono profundo!!

    Boa sorte e nunca desista!!

    Um grande abraço, Laís.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em setembro 14, 2015 por .