pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Que pôs meu frágil coração na cruz

aquario

Você não vai acreditar, mas não trabalho mais às segundas-feiras. Assim, segunda é quase um domingo prolongado, com mais trânsito, mas menos gente passeando.

Às segundas sou tia do Derek. É nesse dia que tenho ido com ele a alguns lugares: andar de bicicleta no parque, ver os animais no zoológico e, essa semana, visitar o Aquário.

Quando cheguei, ele já estava pronto, lindo numa camisetinha amarela e bermuda caqui. Só faltava calçar as havaianas, com o elástico na parte de trás. Perguntei se podia calçá-lo, ele sorriu e me disse que sim.

Derek vai no caminho me mostrando as motos, as ambulâncias e o trem. Fico pensando no que a gente deixa de ter tempo de olhar e precisa de uma criança de três anos conhecendo o mundo pela primeira vez pra gente reconhecer as coisas através dela.

No aquário, os primeiros tanques. E o tubarão, a enguia, as arraias entrando na vida dele. Era mágico. Eu, ali, torcendo pra que ele visse tudo o que é diferente pra que eu pudesse ajudá-lo a olhar.

Ele suspirava a cada janela e a proximidade de um animal. Às vezes no meu colo. Às vezes ao meu lado. Eu respirando o mundo como se fosse a primeira vez.

Dá-me uma mão a mim e a outra a tudo que existe. Derek me fazia perguntas enquanto olhava o novo. Queria saber se a tartaruga estava olhando pro céu, se o suricato era feroz, se o canguru sabia dormir, se o urso polar comia a boia.

E eu buscava na memória curiosidades ou lembranças de cada animal. Contei que o cavalo-marinho consegue mudar de cor. Ele não pareceu muito interessado. Lembrei que você, o Fabio e eu corremos atrás de um pinguim numa praia do Chile. Ele sorriu.

Dormiu na volta. A felicidade não necessita de palavras.

E naquela tarde, a mim ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas.

Quarta-feira amanheceu com a imagem de Aylan, um menino também de três anos deitado na praia. Estava calçado e com uma camisetinha vermelha. Aylan não veria mais o mar, os peixes e cavalos-marinhos. Não saberia sobre pinguins e trens. Não passearia com a tia pelas ruas do Canadá. Talvez não tenha tido tempo de aprender sobre os suricatos, mas sim que o homem é feroz.

Todas as palavras me faltaram, amarradas no nó da garganta. E eu de novo pensei no que a gente deixa de ter tempo de olhar e precisa de uma criança de três anos conhecendo o mundo pela primeira vez pra gente reconhecer as coisas através dela.

A gente precisava do olhar de Aylan. A gente precisava das perguntas de Aylan. E o mundo não tem respostas pra dar.

Creio no mundo como num malmequer, porque o vejo. Mas não penso nele, porque pensar é não compreender…

Que mundo é esse?

Eu acho, Ita, que é melhor esperar mesmo mais um pouco. Ainda não é tempo de você acordar.

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4 comentários em “Que pôs meu frágil coração na cruz

  1. Dani
    setembro 8, 2015

    O Derek é apaixonado pela tia Bê!! ❤️ Ele só pensa no próximo passeio com a amada e esperada tia Bê!!

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      setembro 9, 2015

      Derek é meu amorzinho, capaz de fazer às segundas aguardadas e deliciosas! Amo vcs! ❤

      Curtir

  2. Kika Mortari
    abril 11, 2016

    Os seus textos emocionam. São pura poesia.
    Rezo a Deus para que Ita acorde e possa ler todos eles e tenho certeza que ele sabe o quanto é amado por você.

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em setembro 6, 2015 por .