pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim

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Você não vai acreditar, mas tem pais que contratam uma pessoa pra ensinar o próprio filho a brincar. Hoje existe um coaching de brincar. Acho que preciso repetir pra eu mesma ouvir e tentar acreditar. Coaching de brincar.

Estão terceirizando até as brincadeiras? Essas coisas a gente aprende? Não era só ir para o jardim e pronto? No mistério do Sem-Fim equilibra-se um planeta. No planeta, um jardim. No jardim, um canteiro. E no canteiro, o dia inteiro. Entre o mistério do Sem-Fim e o planeta, a asa de uma borboleta…

A gente brincava entre a gente, às vezes com bola, com algum brinquedo ou com um bicho de estimação – coelhos, porquinhos da Índia, pintinhos, patos, cachorros – ou com tatus e grilos do quintal. Faz tanto tempo que não vejo um grilo. Será que hoje existem coachings pra substituir os grilos?

A gente brincava, mas também brigava muito – Fabio já nasceu o senhor da guerra.

E o pai e a mãe só entravam nas nossas brincadeiras com jogos de tabuleiro: war, detetive, banco imobiliário, memória, leilão de arte. Lembra do leilão de arte? Esqueci das regras, mas o objetivo era comprar obras de arte famosas e pagar um bom preço por um quadro muito valioso.

Quando não tinha vocês por perto, tinha minha irmã imaginária, a Siriri. Ela conseguia coisas: subir na árvore da casa do Dino, escalar o muro do Dr. Valter, nadar na parte funda da piscina. Eu era um pouco medrosa e ela me contava da vida por trás dos muros.

Fico pensando se hoje em dia você precisaria de um manual pra ser pai.

Se sim, então me arrisco:

  • Tenha filho. Se puder, tenha mais que um. Vale a pena.
  • Mude para um predinho baixo.
  • Olhe para o espaço do térreo. Não precisa de piscina. O playground pode se resumir a um gira-gira e um trepa-trepa quase enferrujados. Mas precisa de espaço, onde crianças sejam bem vindas e que pareça um quintal.
  • Ouça os sons e confira os aromas que vêm dos apartamentos. Isso é muito importante. Saber quem mora ali.
  • Perceba se você pode escutar a voz do Thiago vindo do apartamento 11 e da Giulia vindo do apartamento 12. Escutou? Então é certeza de que a vida dos seus filhos será garantidamente feliz. E eles serão amigos pra sempre e vira e mexe brincarão da velha infância.
  • Veja se no segundo andar mora o Seu Cleo, um senhor bem calado, que anda com um papagaio no ombro e gosta muito de ser síndico. Talvez ele se ache comandante do Condomínio Ilha de Córsega.
  • More no terceiro andar, no apartamento 33. Aprenda ali a ser mãe – ou pai – e plante ali as raízes dos seus meninos.
  • Sinta se do quarto andar vem sempre um cheiro delicioso de comida. Ali, então, deve morar a Eliane, a Sonia e a Nina. Seus filhos serão chamados pelos filhos delas pra comer muitas delícias. Quais filhos? O Alan, a Pri, o Felippe, o Rafinha e a Ju.
  • Fique triste da Celia se mudar do quinto andar tão cedo. Afinal, ela foi sua primeira amiga do prédio e te ensinou como ter três filhos com pouquíssima diferença de idade e não enlouquecer.
  • Acostume-se com a alta rotatividade dos moradores do sexto andar. Alguns você vai conhecer, outros não. A vida é assim.
  • Aprenda que milagres existem com a família Bravo do sétimo andar: Roberto, Eliana, Robertinho e a doce Bruninha. Você vai se apaixonar por eles.
  • Espere algumas brigas com uma moradora da cobertura. Nada é perfeito. Mas alegre-se por encontrar por lá a Eliana e seu Felipinho. Ou a Marcia e seu Felipão.
  • Esteja certo de que seus filhos vão gostar de passar mais tempo no térreo do que no apartamento pequeno. E isso vai ser uma sorte.
  • Entenda que você nunca vai saber se foi a água ou um pé de vento ou a corrida pelas escadarias que fez dessas crianças crescidas pessoas tão legais.

Porque criança não precisa de muita coisa. Os meus não precisavam. Tinham os irmãos e tinham esses muitos amigos. Não queriam viajar nas férias, para poder passar o dia inteiro lá embaixo. Quem sabe até acampar no salão de festas.

Tinham histórias de terror. Tinha um enfeite em uma das portas que parecia um diabo. Tinha até uma vilã de histórias, moradora do segundo andar que pedia silêncio bem cedo e furava as bolas que caiam no terraço.

Tinham joelhos esfolados pra aprender andar de bicicleta – importante ter alguém como o Tonho pra ajudá-los nessa tarefa. Eu era uma mãe covarde e tinha medo dos tombos.

Tinha coleção de figurinhas, de gogos, de Kinder ovo. Tinha vídeo game e futebol de botão nos dias de chuva.

Tinham os pais lá embaixo, trazendo pipoca, combinando aniversários, picnics, festas juninas e natais. Tinham vizinhos que viraram amigos, desses que se carregam até hoje e você fica feliz de encontrar na rua, em casa ou no coração.

E tinha muito futebol e todos os seus aprendizados. Meninas jogam bem sim e gostam de bola, nem sempre de boneca. Tem que saber ganhar e saber perder. Tem que respeitar as regras e o outro. Tem que saber resolver sozinho o problema com o amigo que naquele momento é seu inimigo. Tem que entender que vai chorar e aprender a engolir o choro. Tem que ouvir que seu time é o pior do mundo e tem que ter garra pra provar que não é. Tem que ter a certeza de que é importante contar com o outro, porque ninguém ganha nada sozinho.

Ita, quer saber, esqueça os coachings, receitas ou manuais. Lembre do nosso quintal. Eu, por exemplo, enfiei o que pude dentro de um grilo.

Compre uma bola, qualquer uma, de presente pros seus filhos.

Separe uma caixa ou um armário vermelho e feche lá dentro o que restou da sua criança, das suas crianças.

E mesmo que o tempo passe rápido demais e a gente siga por outros caminhos, guarde a certeza que você tem pra quem e pra onde voltar.

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2 comentários em “Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim

  1. Cris
    agosto 2, 2015

    Bettina, não importa o espaço que temos. O importante é sempre estar com os amigos. Com eles, os espaços sempre ficam maiores do que realmente são. O amor os alarga!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em agosto 2, 2015 por .