pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Não pensar em você, não é fácil, é estranho

primavera

Você não vai acreditar, mas a velocidade da Marginal Pinheiros passou a ser de 50 km por hora. Cinquenta é muito pouco. Você tem aquela sensação estranha de fazer parte de uma cena em slow-motiom, de ter sido atingido por um gás paralisante.

Pensei muito em você, que com certeza ficaria furioso com a nova medida. Também fiquei. Indo pra sua casa ontem, precisei olhar mais para o velocímetro do que pra frente, pra não ultrapassar.

A prefeitura acredita na urbanização transformando psicologicamente o cidadão. “Ambientes civilizados civilizam pessoas.” O estranho é pensar que chegamos num ponto em que a civilidade precisa ser construída de fora pra dentro, meio a força.

Cinquenta é estranho. Parece que você está em outro lugar. E eu estive mesmo. A mãe e eu fomos pra Santa Rita na quinta-feira. O motivo era triste, não férias. Tia Maria Gilda foi embora quarta-feira e a gente precisava abraçar a Fer, o João, a Manu e o Ge. Já te falei o tanto que gosto deles? Porque tem um pouco da família que a gente vai deixando pelo caminho. Mas eles não. Cada vez quero tê-los mais perto.

Abraçá-los foi como revisitar uma parte muito feliz que mora em mim. Reconhecer cheiros, lugares e memórias.

A gente chega devagar naquela cidade – acho que nem a cinquenta por hora. As primaveras florescem de todas as cores na estrada do trevo. Muitas ruas ainda são de paralelepípedo e o sol entra na alma mesmo de dentro do carro. Você olha para o lado e é normal aquela sensação de fazer parte de uma cena em slow-motiom e de ter sido atingido por um gás paralisante.

As casas tão verde e rosa que vão passando ao nos ver passar. Lá, as pessoas, das calçadas e nas janelas, têm tempo de se olhar.

Passei pela matriz, pela estação, pela casa da Albertina onde ela fazia os doces e o cheiro de goiabada escorregava até a calçada. Não, ela e o cheiro não estão mais lá.

Passei por onde era a telefônica e lembrei de ir até lá todas as noites, quando você e o Paulo passaram aquelas férias em Cabo Frio, e o meu amor e o dele precisavam ter horário marcado.

Vi onde era a entrada da Fazenda da tia Zita e ainda estranho não ter o mata-burro. Apagaram essa parte de mim.

Meus filhos também passaram muito da infância naquelas ruas. Era o único lugar no mundo que eu deixava que eles saíssem sozinhos aos oito anos. O sonho de liberdade era ir da casa da vó Gilda até a loja de 1,99, separadas por alguns passos. Até hoje eles lembram das compras fundamentais que faziam: vasinhos de porcelana, biribas, bolinha de gude e um peixe dentro de uma bola de vidro.

Nas casas, pela varanda, flores tristes e baldias, como a alegria que não tem onde encostar. Nas ruas, carros, tratores, cavalos, carroças, pedestres e bicicletas. Muitas bicicletas.

Fiquei pensando se a felicidade e a civilidade precisam desse tempo das pessoas se olharem para serem construídas.

Quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Talvez a gente só tenha que ir mais devagar. E talvez precise mesmo ser a cinquenta por hora. Eu sei, é estranho.

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2 comentários em “Não pensar em você, não é fácil, é estranho

  1. Paty
    julho 27, 2015

    Meu deus……que saudades…..saudades daquele enorme sorriso… do coração que nao cabe no peito.. mas q sempre cabe mais um…..um monte…… dos pedidos……dos papos….. das gargalhadas…… estou te esperando!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em julho 26, 2015 por .