pra quando você acordar

por Bettina Bopp

O amor é tão maior

indie e a casa

Você não vai acreditar, mas transformei minha vida numa piada velha há nove meses. Assim como Jacob, naquele conto judaico, que coloca uma vaca para dentro de casa, eu coloquei um bezerro de nome Indie pra dentro da minha vida.

Num domingo, o Fabio me ligou perguntando se eu queria um filhote. Algumas palavras acendem em mim uma luz verde da imaturidade. “Filhote” é uma delas. Daquele momento em diante, eu precisava desesperadamente de um bebezinho. Ele era branco, mínimo, com cheiro de leite. Definitivamente, não posso com aquela boca com cheiro de leite!

Bruna e Lucca foram sábios: “Não, mãe, não precisamos de um filhote agora.”. Telefonei pra Maria. Com a certeza da luz verde hereditária, teria uma aliada. “A gente pode buscar hoje, mãe?”. Juntas, quase enlouquecemos os outros dois: “É branco como o Jazz! Companhia pro Folk. Segurança pra casa!”.

Indie chegou no meio de setembro e já mostrou a que veio. Comeu a caminha em poucos dias, destruiu pés da cama e livros, fez xixi dentro de sapatos. “Vai melhorar, é muito bebê.”

Acordava de madrugada pra andar e causar pelo quarto. Comeu todos os fios do meu computador. “Vai melhorar, só tem três meses”.

Como Jacob que, além da vaca, coloca uma cabra pra dentro de casa, nessa mesma época, também trouxe uma cabrita, quer dizer, a nossa nova gata pra morar com a gente. E a gente logo percebeu que, no começo, os encontros entre o Indie e a gata precisariam ser supervisionados. Ela dentro, ele fora. Ela em cima, ele embaixo. Ela trancada, ele solto. Trabalhoso. “Vai melhorar, vão crescer juntos”.

Foi também nessa época, que descobrimos um novo olhar do Folk. Olhar que dizia: “Meu Deus, por quê? Onde foi que eu errei com vocês?”.

Final do ano na praia e o Indie transformando a paisagem do quintal. Pequenas poças de água viraram chiqueiros imensos de lama. Três banhos por dia era pouco. E um espacinho embaixo da cerca virou um buraco enorme, rota de fuga pro terreno do vizinho. “Vai melhorar, a gente vai castrar.”

A gente levou o Indie e a gata para serem castrados no mesmo dia. A veterinária disse que ele ficaria bem sonolento até chegar em casa. No caminho, ele virou a caixa da gata de ponta cabeça várias vezes entre uma cochilada e outra.

“Vai melhorar… vai melhorar?”

Nosso jardim florido, com vasos e plantas, hoje mais parece um cenário de guerra. Todos os vasos comidos. Indie tem um método: primeiro arranca a planta, destrói o vaso, espalha a terra e depois anda com a planta na boca pelo jardim. Agente polinizador.

Com dor no coração, a gente chegou à conclusão de que ele, muito diferente do Jazz e do Folk, seria um cachorro de quintal. É triste vê-lo carregando um cobertorzinho pelo jardim. Por que escolher ser o Linus da tirinha do Peanuts se ele poderia ser o protagonista embaixo do edredon?

Nove meses depois, os encontros com a gata continuam trabalhosos e supervisionados e o olhar do Folk o mesmo: por quê?

Falamos com um especialista. Ele não tem dúvida de que o Indie se considera o macho-alpha da nossa matilha. E que nós, mais do que ele, precisamos ser adestrados. Vou aprender a dar a pata aos 50!

Claro que a gente já percebeu que tem coisas que não vão melhorar com o tempo. Mas o tempo também tem sido responsável por algumas outras mudanças: Indie triplica de tamanho, triplica o tamanho das bobagens que ele faz e triplica o amor incondicional que a gente já sente por ele.

Tenho pensando que certas coisas que mudam nossa vida a gente mesmo é quem provoca. Outras vêm quietas, no escuro, sem preparos de avisar. O que aconteceu com você é a minha grande mudança. Ainda preciso colocar coisas pra dentro desse espaço interno que a sua ausência me causa. E às vezes viro de ponta cabeça como a gata na caixa.

O que eu sei é que continuo aprendendo. Com o adestrador, com o Indie ou com o Guimarães. O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Coragem.

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10 comentários em “O amor é tão maior

  1. Luís Henrique
    maio 31, 2015

    Muito bom!!! Imagino você com esse quadrúpede irracional, e agora? Revolucionou a casa e deu outras atividades para você. Pré vestibular para os netinhos, filhos dos seus filhotes que virão.

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      maio 31, 2015

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      • Michel
        julho 23, 2015

        Vejo em um futuro próximo, livros sendo lançados! E de qualidades! Parabéns pelo texto. Contextualização excelente e criatividade passeia nas idéias!

        Curtido por 1 pessoa

  2. Bruna
    junho 3, 2015

    Manhê, faz muito tempo que eu não comento, né? Por que será? Nem sei dizer. Talvez porque tudo que eu sinto a cada texto tenha ficado grande demais para caber em algumas letras. Quanto da minha admiração cabe num pingo do “i”? Nada. Nem num L ou num Z. E faz tempo que meu amor não pode ser contido por essas quatro letras. Mesmo assim, vou me esforçar para que consiga expressar nas linhas e entrelinhas o quanto acho seus textos incríveis e suas ideias geniais.
    Te amo!

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  3. Bruna
    junho 3, 2015

    e o seomerrrrrda é um merrrrda.

    Curtido por 1 pessoa

  4. Bruna Yezeguielian
    junho 19, 2015

    Estou aqui me atualizando nas leituras!
    Lembro que vocês me ensinaram a não ter medo de Pitbulls após conhecer os dos seus irmãos. Se eu não me engano conheci um na casa da sua mãe que se chamava Sheriff, e depois vivia cruzando com ele na pracinha do lado de casa e com a namorada de algum dos seus irmãos.

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    • bettinabopp
      junho 19, 2015

      Isso mesmo, Bru, Sheriff era o cachorro que o Fabio deu pra Dani! Saudades, querida! bjok

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  5. Diwlay
    maio 5, 2016

    Meu. Deus. Estou a minutos (talvez tenha dado uma hora) mas parece que se passaram anos em memórias. Memórias de outros. Memórias que não são minhas, mas que se movem e se tornam tão reais em minha mente! Que magia na escrita é essa, mulher? Que transparência é essa? Que dê tudo certo para o Itamar, Ita ou Má, rs! Que ele acorde logo, apesar que, nos braços de Deus deve ser tão melhor que aqui, não?!

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Publicado em maio 31, 2015 por .