pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Em estantes, gaiolas, em fogueiras

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Você não vai acreditar, mas ontem contei história na Feira Literária da escola e, mesmo depois de tantas vezes, me emocionei. Tem uma fase da vida que passamos a sofrer incontinências. Sofro de incontinência de lágrimas. Ando chorando até da atitude de princesas que não aceitam facilmente convenções. Nada a ver com a monarquia inglesa, só um livro infantil da Ruth Rocha.

E pior que nem consigo disfarçar. Meu nariz me entrega. Sabe a rena do nariz vermelho? Então, sou eu, um segundo antes de chorar. Meus filhos me perguntam: “Mãe, tem por que você chorar por isso?”. Não é premeditado. Vem. Não consigo controlar.

Fico pensando que trabalhar em escola é se preparar constantemente pra despedidas. Já me despedi como mãe de aluno. Me despedi de queridas que trabalharam comigo. E me despeço de muitas crianças ao mesmo tempo a cada final de ano. Nenhum dentista, médico ou arquiteto perdem tantos pacientes ou clientes de uma só vez. Só professor. Ninho abandonado.

Voltando à Feira Literária, a escola estava linda, com livros pendurados em galhos e nas mãos das crianças. Confesso que é o evento que mais gosto. Livros espalhados pelo quintal.

Lembrei de quando a nossa casa era lotada de livros fora das estantes. Livros que o pai trazia, comprados ou emprestados da vó Silvinha ou do Raul. Nosso conhecimento não era de estudar em livros. Era de pegar apalpar de ouvir e de outros sentidos (…). Nossas palavras se ajuntavam uma na outra por amor e não por sintaxe.

Essa semana passei na hora do almoço na casa da mãe. Ela geralmente almoça na casa do Fabio, mas anda chocando você desde que voltou pra casa na terça-feira. Ela estava almoçando sozinha na copa. Sozinha. Me deu um aperto. Parecia um trecho do livro “Éramos Seis”. Você lembra? Na história, Lola sempre conta sobre os pacotes de doces caseiros que recebe da mãe do interior. Falar dos doces indica que já é final do ano e pela quantidade de pacotes, a gente sabe das pessoas da família que ainda moram com ela.“(…) mamãe tinha mandado seis latinhas pequenas de goiabada em calda, seis pacotinhos de figo cristalizado, seis quadrados de pessegadas (…)”

No final do livro, chega pelo correio só uma caixinha de figo cristalizado, uma lata de goiabada em calda e um tijolo de pessegada… Esse final me dava um aperto. O mesmo que senti, vendo a mãe comendo ali sozinha.

Ainda bem que nos finais de semana quebramos o encantamento silencioso e solitário da casa e trazemos vozes e movimento de novo pra sala de jantar. Depois do almoço, afastamos a toalha e jogamos – meus filhos, os filhos do Fabio, a Dani e eu – War ou Academia.

Éramos cinco. Hoje somos onze. Você ainda está na minha conta. Me acostumei com livros esquecidos em estantes, mas não estou preparada pra outras despedidas.

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8 comentários em “Em estantes, gaiolas, em fogueiras

  1. vera
    maio 24, 2015

    Vc escreve com o coração, sempre me emociono e choro!

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  2. aline
    maio 30, 2015

    você não vai acreditar, mas eu li todos os textos do blog. todinhos! me fez pensar em tantas coisas, abriu umas janelas na minha mente…um beijo com carinho!

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      maio 30, 2015

      O melhor é poder acreditar que pessoas como vc existem, mesmo que sejam raras! Obrigada, Aline querida!

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  3. Bárbara Iasmin Jardim
    junho 7, 2015

    Que texto lindo!! Já acompanho o seu blog há algum tempo e sempre me emociono com os seus textos, que falam sobre você e sua família, mas muitas vezes me identifico e me encontro em seus textos. Esse texto é um deles, pois também sou professora e mesmo sendo o meu primeiro ano nesta profissão linda, já estou sofrendo com algumas despedidas . Desejo do fundo do meu coração ,que esse ano, seja um ano de muitas alegrias e vitórias para a sua família!!! Beijinhosss!!
    PS.: Quando o Ita acordar(e eu estou sentindo que não vai demorar muito para isso acontecer), prometa que não irá parar de escrever ,pois precisamos dos seus textos inspiradores e revigorantes, que nos mostram há cada leitura que jamais devemos perder a fé e a esperança.

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    • bettinabopp
      junho 7, 2015

      Ah, Barbara, que doce! Obrigada! É sempre tão bom receber carinho! Promete que vai continuar lendo?! Bjok

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      • Bábara Iasmin Jardim
        junho 9, 2015

        Prometo de dedinho cruzado e tudo!!!rsrsr… beijinhos!!

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      • bettinabopp
        junho 10, 2015

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Publicado em maio 24, 2015 por .