pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Eu levava fé no grande amor

 amores possíveis 

Você não vai acreditar, mas a calopsita da Dani é apaixonada pela chuteira do Fabinho. Não por qualquer chuteira, tem uma específica. Sola amarela e a parte de cima prateada. Mesmo com a liberdade de andar solta pela casa, Neca – esse é o nome dela – fica próxima da gaiola toda vez que o Derek pendura a chuteira por lá. Então, ela canta, se exibe, pia alto e parece mais feliz.

Indie não pode ver a gata. Temos que mantê-los separados. Quando ele escapa e encontra com ela, precisamos correr. Não, ele não morde ou avança, mas lambe tanto, até deixá-la descabelada. O grande problema é a patada. A gata é pequena e frágil e a pata dele é enorme. Ela não parece ter medo, parece até gostar muito. Morde a cara dele, a orelha, a bochecha. E ele fica absolutamente hipnotizado. Quem sabe, encantado.

Talvez uma parte de mim insista em poetizar a vida, imaginando que o furão voando nas costas daquele pica-pau seja uma carona entre amigos mais do que uma luta pela vida. E que as borboletas bebendo as lágrimas de tartarugas seja por solidariedade e não pela falta de sódio.

Nos primeiros dias no hospital, o saguão ficava cheio de amigos. Quase todo mundo se conhecia. Mas todo final de tarde aparecia uma menina bonita, sempre com os olhos muito vermelhos, que não falava com ninguém e ficava sentada sozinha. A gente achava que ela estava ali por causa de outra pessoa na UTI.

Num final de tarde, meus filhos foram ao hospital e lá estava ela novamente. “Mãe, aquela que é a Fiona que namorava o Má.” Lembra que um tempo antes de dormir, você tinha saído pra jantar com os meus três e apresentado uma nova namorada? Eles a acharam a cara da Fiona do Shrek – a princesa, não a ogra –, mas não lembravam o nome dela.

Vendo os três, ela se aproximou. E me contou a história de vocês. Ela era ex-mulher de um bicheiro famoso e perigoso. Ele não aceitava a separação e o namoro de vocês. Sabia das flores que você mandava, onde vocês jantavam, que filmes assistiam. Telefonava nos lugares em que você trabalhava, fazendo ameaças veladas. Foi no dia que ele ligou lá em casa que você resolveu mudar pro flat, ela contou. Foi pra nos proteger, não foi?

Fiona falou do sofrimento quando vocês se afastaram. Não coube nesse conto de fadas que viviam um vilão contraventor jurando você de morte.

Talvez um pedaço de mim tenha essa mania de roteirizar os dias, acreditando que todos os milagres e amores são possíveis, independente das tantas diferenças entre Montecchios e Capuletos e das grandes ou pequenas vilanias.

Fiona dizia ter certeza que vocês ainda viveriam essa história de amor. Será?

pica pau e borboleta

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2 comentários em “Eu levava fé no grande amor

  1. Flávia
    abril 27, 2015

    Eu também levava fé no grande amor!! Mas tô me identificando com essa calopsita que se apaixonou por uma chuteira! O problema é que a minha já tá perdendo o brilho e não tem nem esse amarelinho da sola para me esquentar. Haja fé!!
    Sempre que te leio, recupero um pouco da fé, na tribo, pelo menos!
    bj grande procê!!

    Curtido por 1 pessoa

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Publicado em abril 12, 2015 por .