pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Eu era tão criança e ainda sou

        andra 1

Você não vai acreditar, mas a Paula está no Brasil e a gente não vai se ver. Não veio pra visitas e risadas. Está aqui pra ficar com os pais por alguns dias e enganar a distância difícil. Está aqui para recolhimento e cuidado. Para estar com os seus e só.

Passo perto da Lélis Vieira e olho aquela rua que só tem sentido quando a Paula está por aqui. Lembro da primeira vez em que entrei na casa dos Almeida Andrade. Uma casa branquinha, com grama no jardim da frente e uma aura de filme espalhada pelos cantos.

Primeiro, pela jabuticabeira enorme e carregada perto da lavanderia. Nunca tivemos uma árvore frutífera na nossa casa, por que será? O mais próximo que chegávamos de frutas penduradas era nas férias em Santa Rita. Então, pra mim, disputar com os passarinhos e com os irmãos as jabuticabas, em plena São Paulo, era mágico como James e o Pêssego Gigante.

Depois, não conhecia uma família com tantos irmãos. Nove! Era como visitar os Waltons. Na cozinha, por trás da porta de correr, me impressionava com o tamanho das latas de Toddy, leite condensado e Nescau. Pareciam saídas da Terra dos Gigantes. E ali perto da pia, a sempre atarefada e engraçada Inês – que com certeza era a irmã mais nova das fadas Flora, Fauna e Primavera.

Além de tudo que fazia, Tia Lila também fazia um perfume delicioso e o corredor dos quartos tinha esse aroma especial. Ela dava a receita, mas nunca ficava igual. Talvez o ingrediente secreto fosse ser mãe de nove filhos.

Tio Arthur ensinou os filhos desde pequenos a terem responsabilidade financeira. Eu achava incrível como quase crianças podiam lidar com tanto dinheiro. Com a própria mesada, a Paula pagava a mensalidade do clube, as aulas de jazz, o lanche da escola, o tênis ou uma blusinha da Crazy shirts e as nossas viagens. Aprendi muito com ela.

Dos irmãos, Vitor era muito mais velho que a gente naquela época – hoje não mais. Além de adulto, não chamava tia Lila de mãe, mas de Lila. E eu achava que quem só tinha esse privilégio de chamar a mãe pelo apelido era o mais velho entre tantos.

Guy era o nome escolhido por causa de um personagem de livro e isso já dava uma história. Gentil era outro irmão, que na época morava longe. Mario Quintana disse que o bom, mesmo, são os adjetivos. Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto. Então esse irmão, que além de adjetivo era nome próprio, havia de ser bem legal.

Dos outros, fui mais próxima em alguma fase adolescente. Marcio jogava pólo aquático e tinha um aquário iluminado no quarto. Fácil de se apaixonar. Fabio, apesar de mais velho, não se importava em ir ao cinema, ir ao mingau do clube ou à Praça do Por do Sol com a gente. Lembro de assistir King Kong no Shopping Iguatemi com ele. E Sylvio já nasceu filósofo. O pai achava sensacional todos nós adolescentes em casa na piscina, num domingo de sol, e o Sylvio ali perto dele, lendo jornal e discutindo problemas do meio ambiente.

Das meninas, tenho muitas lembranças. Bia era a mais velha e a irmã que todo mundo queria ter. De gargalhada fácil, não havia um dos Andrade que passasse pelo quarto delas e não entrasse, fizesse uma brincadeira ou tivesse uma conversinha rápida com ela.

Celina, linda, era minha musa. Tinha sempre uns lenços enrolados no pescoço ou no cabelo e umas saias compridas e estilosas. Andava devagar, quase desfilando. Cantava bem, era dona do Napoleão e do coração de homens bonitos do bairro.

Mas ali morava também minha melhor amiga e minha irmã escolhida pra viver nessa vida em outra casa. Depois que nos re-conhecemos, nunca mais nos largamos. Viagens, escola, aula de dança, voluntariado na FEBEM, filhas do Paul, trabalho no Palmares, no Gávea, no Ítaca, madrinha de casamento, madrinha da Maria, fofocas, brigas, cartas, segredos. Por falar em segredo, ela foi sua primeira paixão adolescente, não foi, Ita?

Paula ocupava espaços internos e externos e deixou um vazio imenso quando se apaixonou pelo John, teve duas meninas lindas, mas foi morar longe de mim. Logo a Paula que era aquela que bastava ir comigo apenas uma vez em algum lugar, que sempre que eu chegasse ali de novo alguém iria me perguntar “E a Paula?”.

Ela não estava por aqui quando você dormiu ou quando o pai foi embora. E meu coração perguntou: “E a Paula?”.

Hoje, queria que ela tivesse a certeza de que estarei sempre por aqui, entendendo os silêncios e esperando por ela.

Andra, te amo.

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Publicado em março 29, 2015 por .