pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Vida que vai na sela dessas dores

Jardim florido

Você não vai acreditar, mas já não lembro da última vez que você foi na minha casa. Lembro da última vez que te vi acordado. Eu estava indo embora da sua casa, meu carro parado na porta, a gasolina escorrendo do tanque. Fiquei preocupada e te chamei. Você apareceu com cara de sono, disse que era porque o tanque estava muito cheio. Meus filhos se despediram de você e disseram que te amavam – aprendi com eles a dizer “te amo” com tanta leveza e facilidade. E você foi dormir duas semanas depois com essa certeza: era amado.

Tenho registrado sem querer a última vez que o pai foi na minha casa. Ele e a mãe prepararam uma festa-surpresa pra mim. Aliás, não sei por que eles tinham mania de me fazer festas-surpresa. Nunca gostei. Você já estava dormindo e o pai já estava doente, mas ainda não sabia.

Foi em uma outra festa-surpresa que você me contou que estava noivo da Cris e que se casaria perto do seu aniversário. Você estava feliz e cantamos juntos “João e Maria”. Outubro chegou e você continuou solteiro. Não me surpreendi.

Fico pensando por que a gente não sabe das nossas últimas vezes: última vez que vai ver alguém, que vai perguntar alguma coisa, que vai cantar uma música do Chico. Essa coisa da vida não ter avisos me incomoda. Sou avessa a surpresas.

Meus filhos preparam uma festa linda pra mim. Não foi surpresa, mas ainda me surpreende não poder esperar você e o pai chegarem. O pai seria o primeiro. Ele e a mãe trariam muitas flores e mais cinco centos de salgados pra ter certeza da fartura. A chuva não seria uma preocupação, porque ele colocaria um toldo retrátil duas semanas antes e faria de tudo pra deixar todo mundo à vontade e me ver feliz.

Você chegaria tarde, quase na hora do parabéns, e cantaria junto da Mari, dos Botossos e dos meus meninos. Acenderia o cigarro da Lu e da Fer antes delas pensarem em pegar o isqueiro e estaria atento a todas as gentilezas próprias de um libriano-sedutor-bico-doce.

Esperaríamos o fim de festa pra de novo sermos nós, sentados no sofá e comendo enroladinho frio. Quase posso ver o Derek dormindo no colo da Dani, a Isabella grudada no celular e o Fabinho e o Lucca falando sobre o São Paulo. O Fabio contando alguma história que daria um filme e a Maria falando do próximo filme que faria. A mãe adorando abrir comigo os presentes e a Bruna atenta a todas as gentilezas próprias de uma libriana-preocupada-e-família.

O pai faria piada dos seus planos futuros, Ita. Porque poderia ser morar em Itacaré e viver da pesca ou abrir um hotel seis estrelas na Vila Olímpia. Sinto saudades das suas indecisões…

A vida segue com essas faltas e ausências e nos surpreende: como a gente pôde se acostumar?

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2 comentários em “Vida que vai na sela dessas dores

  1. Desiree
    março 22, 2015

    É verdade Be, que capacidade é essa de nos acostumarmos com situações que vão aparecendo e que antes de acontecer, não conseguimos nem pensar na possibilidade de um dia acontecer…que coisa né! 😓

    Curtido por 1 pessoa

  2. bettinabopp
    março 23, 2015

    O que não nos mata, nos torna mais fortes, né Desi? ❤

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Publicado em março 22, 2015 por .