pra quando você acordar

por Bettina Bopp

    Como não fui eu que fiz?

bandeirolas

Você não vai acreditar, mas fazia um ano e meio que eu não ia ao cinema. Fico até com vergonha de falar. Como a mãe de uma cineasta não vai ao cinema? Nem me reconheço, às vezes. Mas enfim, na semana passada, fui assistir a Relatos Selvagens com a Maria.

Claro que não vou ser spoiler e te contar o filme, mas sabe situações de injustiça, traição e revolta que a gente poderia muito bem viver? O filme fala disso. São situações tão comuns que fica fácil de qualquer um se identificar. E que pode te levar a um ataque de fúria e a desejar um desfecho parecido com o do filme, mesmo que só no seu mundo interno.

No meu caso, meu lado B desperta cada vez que uma enfermeira antecipa seus remédios, entope sua sonda gástrica e abandona o plantão. Ou quando sei que alguém machucou ou matou alguém por estar embriagado ou drogado. Ou ainda, com toda essa podridão que envolve a política e a mídia, e que produz a indústria do medo, da descrença e da miséria. Do “é assim, vai ser sempre assim, não tem mais jeito”.

É tão fácil se envenenar, né? Eu tinha uma raiva incontida de CETs, por exemplo. Acho que por isso me identifiquei com uma das histórias do filme. Pra mim, todo CET era sádico, oportunista e injusto. Não tinham família, nem amigos, nem sentimentos. Brotavam do meio da calçada, em alguma esquina, e já nasciam segurando uma caneta, um bloquinho e vestidos pra multar.

De novo as generalizações burras e preconceituosas, das falsas certezas socialmente partilhadas. Claro que existe CET mau caráter. Assim como advogados, médicos, políticos, dachshunds… Deixa eu te contar uma coisa. Na Páscoa do ano passado, estava saindo de casa e tinha um carro estacionado na frente da minha garagem. Não era a primeira vez. O meu carro estava na rua, então eu conseguiria sair, mas fiquei transtornada. Entrei em casa e liguei pro CET, imaginando que demorariam horas pra alguém vir e ainda não resolver.

Juro, em dez minutos, chegou uma viatura com uma mulher – CET. Desceu do carro e eu contei da folga do sujeito e disse que queria que o carro fosse guinchado IMEDIATAMENTE. Ela pegou o bloquinho, multou o carro e começou a conversar. Me contou que era de Minas, que estava de folga, mas tinha resolvido trabalhar, porque esse ano não queria comemorar a Páscoa. Um irmão querido tinha morrido há pouco tempo do coração. Contei sobre você. Pra resumir a história, nos abraçamos na rua, choramos e ela me aconselhou a não perder tempo esperando o guincho.  Se ela pudesse, correria pra perto do irmão pra celebrar a Páscoa, mesmo que ele estivesse dormindo.  Acho que hoje posso dizer que tenho uma amiga-CET.

Amanhã faz exatamente um ano do primeiro texto que postei no blog, Ita. Ainda não posso dizer que se – ou quando – você acordar vai enxergar um mundo melhor. Esta também é uma das minhas preocupações ao escrever as coisas por aqui. Então te adianto algumas boas novas:

O homem mais velho da Austrália, com 109 anos e morando num asilo, tricota roupinhas para os pinguins das Ilhas Phillip. Porque depois de um derramamento de óleo, os pinguins precisam usar casacos pra não morrerem de frio.

E foi criado um aplicativo incrível, o Be My Eyes, que permite que você empreste seus olhos pra pessoas com deficiência visual por alguns momentos. É bem simples. Pela câmera do celular, os voluntários podem revelar qual é a cor de uma camisa, o nome de um remédio ou qualquer detalhe visual que antes era inacessível. Não é o máximo?

E ainda um trecho de um texto do Rabino Ian Mecler, que cabe tão dentro de mim.

“Você merece estar aqui. E mesmo que você não possa perceber, a Terra e o Universo vão cumprindo o seu destino. Assim, esteja em paz com Deus, como quer que você o conceba. E quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações (…) mantenha-se em paz consigo mesmo. Apesar de todos os enganos, problemas e sonhos desfeitos, este ainda é um mundo maravilhoso. Entusiasme-se. E faça tudo para ser feliz!”

PS: A foto é do meu terraço, onde pendurei ao vento, num dia auspicioso de dezembro, bandeirolas tibetanas de oração. Assim seja.

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2 comentários em “    Como não fui eu que fiz?

  1. Eduardo Matosinho
    fevereiro 16, 2015

    Parabéns Bettina por essa importante marca. Seu irmão merece toda a dedicação e o carinho que você tem demonstrado por ele. Fiquem todos com Deus. Sua família é linda!

    Um beijo,

    Matosinho

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      fevereiro 16, 2015

      Querido, como é bom ter um amigo como vc por perto. Sempre generoso, sempre com palavras doces! Beijo carinhoso

      Curtir

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Publicado em fevereiro 15, 2015 por e marcado , , , , , , , , , , .