pra quando você acordar

por Bettina Bopp

E o esquecer era tão normal que o tempo parava

              Natal

Você não vai acreditar, mas vamos passar só nós de casa o Natal desse ano. Não vai ter ninguém de fora. Vai ser como os nossos almoços de sábados e domingos, só que com luzes coloridas e frutas secas.

Há uns dias a Má postou uma foto da tia Nena e ela está igualzinha. Tia Nena é a certeza de que o que vivi realmente existiu. Ela é o elo perdido com o passado.

Havia sim um tempo em que a gente ia pra fazenda em Birigui e comia pamonha no alpendre da tia Elvirinha. Havia sim um tempo em que a gente caminhava no terreirão até a casa da tia Maria Gilda em Santa Rita e escutava o silêncio do final do dia quebrado pelo piu de um pássaro triste. Havia sim um tempo em que a gente corria pelo quintal da Tia Janina, brincando de Gênio do Crime e morrendo de medo do Mustang aparecer. Mustang certamente foi o maior vilão da nossa infância. Havia sim um tempo em que as curvas pra Capelinha eram de terra e o tio Theo e a tia Lucia acenavam pra gente na varanda, na chegada e na partida – e na despedida, tios na varanda, jeep na estrada e o coração lá.

E havia sim outros natais.

Esta época do ano é bem melancólica. Este é o momento em que deveriam existir milagres e portais dentro de cascas de nozes – e isso justificaria o fato delas serem tão trabalhosas de abrir.

Quando quebradas, poderia de novo ver e ouvir a vó Silvinha elogiando as rabanadas, o Itinha comendo as castanhas portuguesas, a vó Gilda insistindo em não sentar, pra ajudar a trazer todos os pratos da cozinha.

O pai chegaria depois da missa, quase na hora da ceia. A árvore estaria rodeada de presentes comprados pela mãe, que nunca se convenceu em fazer amigo secreto – “que graça tem ganhar só um presente?!”.

O dia todo seria preenchido pelo aroma de assados da cozinha e o cravo da Índia teria finalmente seu dia de glória.

Enganando o tempo, o relógio antigo giraria ao contrário e bisavós e bisnetos celebrariam juntos. Além dos meus três – já grandes, porque não tem companhia melhor – teriam os três do Fabio. A Fernanda traria o Gabriel, a Ana viria com o Francisco e o Miguel e o Theo chegaria com a Maria e a Lourdes. A casa de novo com muitas peças de Lego, pinos de jogos e gargalhadas pelo chão.

Especialmente nesta véspera de Natal, você não estaria chato – sim, porque esse era o dia em que você decidia ficar no quarto, quase monossilábico, até a hora da ceia. Tinha uma razão?

Voltando ao Natal da casca de noz, você estaria falante e feliz e traria de novo a banda de velhinhos fardados pra tocar as músicas natalinas na porta de casa.

Alguém comeria uma tâmara e mostraria o caroço. Os menores não conheceriam a história mágica da tamareira. A vó Silvinha contaria sobre a fuga para o Egito de Maria, José e o menino Jesus, montados num burrinho, logo depois do nascimento. Falaria sobre a perseguição dos soldados do rei Herodes a todos os bebes recém-nascidos. Contaria sobre a aproximação do exército e os três, exaustos e com fome, procurando refúgio e descanso sob a sombra de uma tamareira.

Quase sussurrando, vó Silvinha diria que, a fim de escondê-los, a tamareira se inclinou para que as folhas cobrissem os três e as tâmaras ficassem ao alcance de suas mãos. E que nesse momento, Maria deixaria gravado pra sempre no caroço dos frutos o seu “Ó” de exclamação, abençoando aquele deserto.

Depois do desfecho, as crianças comeriam tâmaras pela primeira – e talvez última vez – mas todas encontrariam o “Ó” de Maria.

Antes da ceia, faríamos uma oração e teríamos a certeza de que aquele momento seria para sempre guardado dentro de cada um, num lugar seguro e sagrado, como uma casca de noz.

Feliz Natal!

Anúncios

5 comentários em “E o esquecer era tão normal que o tempo parava

  1. Bruna
    dezembro 22, 2014

    Meu Deus, que texto maravilhoso!
    Havia sim um tempo em que a saudade e a nostalgia ainda não tinham espaço naquela mesa cheia. Mas hoje temos um Papai Noel da nova geração, um passarinho vivendo na árvore de Natal e aquilo que realmente importa: a gente ali reunido.
    Te amo!

    Curtido por 1 pessoa

  2. bettinabopp
    dezembro 22, 2014

    Te amo, te amo, te amo, te amo…

    Curtir

  3. Marilda
    dezembro 22, 2015

    Sempre tão lindo, fico até chata de repetir isso sempre. Que sua família tenha um Natal abençoado e eu também queria que ao abrir uma noz tivesse um portal que trouxesse a felicidade dos Natais da infância de volta… Obrigada de novo e sempre por dividir isso tudo com a gente!!! Beijooooossssss

    Curtir

  4. Ronaldo Vasconcelods
    dezembro 22, 2015

    “Este é o momento em que deveriam existir milagres e portais dentro de cascas de nozes – e isso justificaria o fato delas serem tão trabalhosas de abrir.” Lindo, dessas preciosidades que ficam guardadas no coração. Feliz natal e amor pra você!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em dezembro 21, 2014 por e marcado , , , , , , , , , , , , , , .