pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Quem é você, diga logo que eu quero saber

ita praia

Você não vai acreditar, mas não sei mais quem é você. Dizem os místicos que antes de vir pra cá, a gente conhece e aceita tudo o que vai passar. Então, você sabia? Sério? E quis?

Você entre quatro paredes. Nem nos piores pesadelos te imaginei assim. Sua alma é Libra, é livre, é ar. Que boba eu. Sua alma não está presa, não é? Passeia por aí e invade os sonhos da gente. Sempre tem alguém que diz que sonhou com você. Até quem não te conhece ou reconhece mais.

Nunca te disse, mas você sabe que no dia do assalto acho que foi você quem protegeu a mãe? Porque a história toda foi muito estranha. Treze homens armados com fuzis, vestidos como policiais, bateram no guarda da rua e entraram pelo portão.

Como tava reformando a casa do Sabino, muitos deles renderam os pedreiros e ficaram por lá. Cinco entraram em casa quando a Ana foi colocar o lixo pra fora. Agressivos, renderam a pobre da Ana e o segurança e três subiram pros quartos.

Só tava a mãe e os enfermeiros em casa. Nem o Fabio, nem a Dani, nem as crianças. Nem os anjos da guarda de cada um deles! Mas tava você. Eles pediram calma pra todos. Um deles entrou no seu quarto. Perguntou o que você tinha. O Roberto contou. O outro também entrou. Ficaram te olhando, olhando as fotos, segurando os porta-retratos. A mãe chorou, pediu pra não fazerem nada com você. Disseram que não fariam. Um deles disse que você iria ficar bom.

Quinze minutos depois, a Jane vizinha foi rendida quando chegava em casa. Começou a gritar muito e correu de sutiã pela rua. As pessoas do prédio foram pra janela e perceberam o assalto. Os cinco de casa se assustaram. Desceram correndo. Sem levar nada, nem os celulares! Bizarro, né? Se fosse um filme seria Treze homens e um segredo.

E por falar em segredo, você sabe que no hospital a gente descobriu um monte de histórias suas que não conhecia? Era segredo?

Um amigo contou que teve uma depressão muito forte. Não tinha vontade de sair de casa, da cama. Você apareceu lá numa manhã e deu pra ele uma lambreta. “Quando você estiver muito triste, anda na lambreta, com o vento do rosto e se equilibrando pra não cair. No caminho, você vai ver gente, ver coisas, se distrair. A tristeza, com o tempo, vai passando”. Tratamento nada ortodoxo.

Um menino que vendia bala nos bares da Vila Madalena apareceu uma noite no hospital: “Vim ver meu tio” Ficou ao lado da sua cama, conversando e passando a mão no seu cabelo. “Fica bom logo, tio, pra eu andar no seu carro”. Contou que você comprava todas as balas pra ele ir mais cedo pra casa, junto da irmã menor. E todo começo de ano dava o material escolar dele e dela. Por que você nunca me contou isso? Eu poderia ter comprado com você.

Uma outra amiga que morou fora por anos e por isso há anos não te via, veio te visitar. Contou que te conheceu num bar em Itacaré e vocês combinaram de ir pra Camburi juntos, quando voltassem pra São Paulo. Ela não te conhecia direito, por isso marcou com um grupo de amigas de viajarem juntas pra praia com vocês. O carro estava cheio e vocês foram de madrugada.

Passando por uma lombada, com a velocidade mais baixa, você percebeu uma menina saindo de dentro do mato, gritando e chorando. Atrás dela, dois homens. Ela não cabia dentro do carro, mas você gritou pra ela subir no capô e segurar no pára-brisa. A menina foi assim pendurada, na estrada, até um lugar seguro. Agradeceu, nem contou o que tinha acontecido e sumiu no sertão. E a sua amiga te achou incrível.

E soube também que quando um amigo ficou desempregado, você pagou as contas da casa dele por um tempo, pra ele não ser humilhado pelo sogro milionário. Não, não foi o seu amigo quem me contou, foi a mulher dele. Onde está esse amigo? A última vez que ele te visitou foi ainda no hospital. E depois tentou te passar pra trás em um negócio que vocês tinham, enquanto você dormia – tão distraído, sem perceber que era subtraído, em tenebrosas transações.

Você fazia o bem, sem dizer a quem. Tinha esse lado bom da sua balança libriana. Mas no outro prato tinha uma malandragem sedutora e que fez muitas mulheres sofrerem. Isso eu sempre soube. E nunca gostei ou concordei.

E tinha a dificuldade nas coisas cotidianas e necessárias. A rotina te assustava. O que importava era o presente, o tempo e o regalo. Um dia, sem data especial, aparecia com um carro conversível de presente pro pai – que quase arrancava os cabelos! Ou uma casa na praia de presente pra mãe. Ou quando eu quase matei você por dar um triciclo a gasolina pro Lucca quando ele tinha cinco anos. Você sempre gostou de surpresas e segredos.

Tem aquela história bonita dos envelopes colocados embaixo das portas.

“Um viajante passando perto de uma cidade, viu um túmulo recentemente cavado na beira da estrada. Em cima do túmulo, uma madeira simples e nela escrito “Aqui jaz Yóssele”. O viajante achou estranho o homem não ter um enterro decente no cemitério e procurou o rabino da cidade.

O rabino explicou que Yóssele era um homem rico, mas tão mesquinho e avarento, que ninguém quis enterrá-lo ou guardar luto por ele. Enquanto o rabino contava a história para o viajante, um homem muito pobre, bateu na porta.

– O que posso fazer por você? – disse o rabino

– Por favor, preciso de algum dinheiro para comida! – disse o homem.

O rabino deu o dinheiro que encontrou no bolso e fechou a porta. Nem bem retomou a conversa com o viajante, um outro homem, também muito pobre, bateu na porta. E depois mais outro. Um outro ainda. E depois uma multidão. E cada um pedia a mesma coisa: algum dinheiro para comida.

– Mas o que está havendo aqui? Nunca soube que existia tanta gente pobre nessa cidade? – disse, assustado, o rabino – Onde vocês todos estavam se escondendo e por que agora estão vindo a mim?

– Durante anos, alguém tomava conta de todos os pobres da cidade – um dos homens respondeu – De alguma maneira, toda quarta-feira, entre a meia-noite e o amanhecer, um envelope com dinheiro suficiente pra uma semana aparecia debaixo das portas das nossas casas. Mas dessa vez, a quarta-feira chegou e se foi e não apareceu nenhum envelope.

O rabino estava confuso. Mas o viajante era um homem do mundo e perguntou ao rabino quando exatamente Yóssele tinha morrido.

– Quinta-feira passada – respondeu o rabino, buscando moedas pela casa.

– E hoje é quinta-feira de novo. Então o fim dos envelopes embaixo das portas corresponde à morte do avarento? – perguntou o viajante.

Surpresos, o rabino e a multidão entenderam que o avarento Yóssele guardou sua maior virtude em segredo. E guardaram luto por ele.”

Eu espero que o Paulinho não precise mais de lambreta, que as meninas estejam protegidas nas estradas e que o vendedorzinho de balas da Vila Madalena tenha se formado na escola.

E desejo, Ita, que você saiba exatamente o que ainda está fazendo aqui. E que sua alma seja sempre livre. Livre! Fique sim, livre. Fique bem, com razão ou não.

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14 comentários em “Quem é você, diga logo que eu quero saber

  1. Desiree
    dezembro 14, 2014

    Que coisa Be…mais uma vez, não sei nem o que dizer…o tempo que passei com a tua família, nunca consegui decifrá-lo, mas via no seu olhar algo que ele procurava e parecia nunca ter achado e a sua generosidade, se fazia presente nos seus mínimos gestos e o amor pela sua familia, era uma coisa que transcendia essa existência…mistérios…

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    • bettinabopp
      dezembro 14, 2014

      Pois é, querida, difícil fazer sem alardear. E ele fazia. A Débora mesmo me contou coisas lindas sobre ele, sobre eles. “Eis o mistério da fé”…

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  2. Bruna
    dezembro 14, 2014

    Que bom que você voltou a escrever. Sem seus textos, nem eu me reconheço.
    E eu sempre soube que o Ma era esse cara incrível. E, com certeza, ele participou de cada uma das nossas conquistas ao longo desses anos. E muitas outras virão!
    Te amo!

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  3. bettinabopp
    dezembro 14, 2014

    Vão vir, Bubu! Te amo!

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  4. Roberta Ferreira
    dezembro 16, 2014

    Simplesmente lindo ! Essas são as verdadeiras boas ações , quando se faz sem alardear e não se espera nada em troca , fazer por amor ao próximo , só pode ter alguma coisa muito boa e especial guardada pra ele Bê, o importante é nunca deixarmos de acreditar! Um grande bj

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  5. bettinabopp
    dezembro 16, 2014

    Robi, querida, às vezes é difícil de ainda acreditar, mas não tem outro jeito! Teu carinho é importante! Beijo grande

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  6. Walquiria
    abril 27, 2015

    O Ita é um cara de outro mundo. Sua generosidade é imensa. Lembro uma vez que disse a ele que tinha uma Senhorinha na Zona Norte que fazia mais de 1000 pratos pir fia para dar aos outros, pois ele me pediu o endereço e doou por meses cestas básicas pra ela cozinhar para os outros. É a pessoa mais educada do mundo que conheci mas também sabia defender seus amigos. Que falta ele nos faz!!

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    • bettinabopp
      abril 27, 2015

      Que lindo isso, Walquiria! É tão bom saber essas histórias do Ita, me faz tão bem! Muito obrigada pela sua generosidade! Um beijo

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  7. Raquel Oliveira
    julho 23, 2015

    E por um momento acho que estou lendo uma história espírita, essas que encontramos nos livros e nos fazem guardar no coração para sempre.
    Ah, eu ficaria dias lendo essas histórias e mais ainda… Ficaria dias e dias conversando com você.
    Obrigada por encher minha vida de luz.
    Não, não conhecemos… Não nesta encarnação.
    Beijos

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    • bettinabopp
      julho 23, 2015

      São esses mistérios, né, Raquel? E você trouxe sua luz pra nós! Só podemos agradecer! beijo

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  8. Arieli
    julho 19, 2016

    Nossa!!!! Que histórias lindas, sinto muito pela sua dor, por estarem passando por estes momentos, mas para tudo existe um propósito em baixo dos céu. Descobri seu blog hoje através da UOL, seus textos são lindos,verdadeiros e emocionantes, perdi minha mãe tem dois anos. Estou tentando me reencontrar ainda. Suas palavras de alguma forma estão me ajudando.Abraços e Paz.!!
    P. S : Sou do Acre rsrs!

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    • bettinabopp
      julho 21, 2016

      Ah, Arieli, que querida! Suas palavras me emocionaram! Bom saber que alguém do Acre está próxima de nós! Bj

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  9. Blenda Graça
    agosto 13, 2016

    Oi Bett, posso te chamar assim?
    Conheci seu blog há algumas horas atraves do seu filho, no canal de uma blogueira que eu gosto muito (Bruna Vieira).
    Quando ouvi ele falando vim logo procurar seu blog, e quando achei me encantei.
    A forma como você escreve e fala sobre tudo isso é encantadora. Tenho certeza que quando o Ita acordar ele vai amar ler cada post.
    Você, sua familia e o Ita estão em minhas orações.
    Esse amor incrível que você transmite através das palavras chegou aqui em Aracaju. ♥

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    • bettinabopp
      agosto 22, 2016

      Ah, que delicia vc ter levado nossa história pra um lugar tão lindo. Certeza que suas orações vão vir até aqui! Bjok

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Publicado em dezembro 14, 2014 por e marcado , , , , , , , , , , , , .