pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Tudo métrica e rima e nunca dor

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Você não vai acreditar, mas hoje já faz quatro anos. Não, não tem dor. Tem saudade. Falta aquele homem no escritório a tirar da máquina elétrica o destino dos seres, a explicação antiga da terra. Falta uma tristeza de menino bom caminhando entre adultos na esperança da justiça que tarda – como tarda!

Fico pensando quais seriam os atos para definir o pai se ele estivesse na Wikipédia (a Wikipédia é um projeto de enciclopédia coletiva que fornece conteúdo sobre alguma coisa ou alguém).

Pensei em muitos. Mas escolhi um: durante treze anos foi voluntário do Pavilhão 8 do Carandiru, apesar dos riscos envolvidos por ser pai de um policial. Isso era tão nobre, solidário, generoso. Fazia e poucos sabiam.

Ainda assim, não valeria muito se o pai fosse do estilo pomada: só para uso externo. Porque às vezes é mais difícil amar o próximo, aquele que está dentro da própria casa, do que o grande público.

Aqui em casa a gente tinha o melhor dele. E pra todas as gerações: foi o melhor filho, o melhor pai, o melhor avô.

Por isso, escolhi hoje lembrar dele através das palavras dos meus filhos, que escreveram textos pro pai ao longo destes quatro anos de ausência.

pai e bubu

“Corri meus olhos na agenda do celular e esbarrei em você. Já faz mais de dois anos e eu ainda não consegui apagar seu número. Não quero apagá-lo. Apagar é aceitar que não vou mais ver seu nome me chamando no visor, enquanto o telefone toca.

Apagar é assumir que você nunca mais vai me ligar. E por mais que você não me ligue há dois anos, ainda gosto de acreditar que um dia a gente vai se falar de novo. Um papo desses casuais, sobre um caso do trabalho, o jogo do São Paulo e se estou precisando de alguma coisa. Tudo nessa ordem.

Não vou mentir que já te liguei algumas vezes nesse tempo, na tentativa de enganar o destino e ele mesmo se esquecer do que aconteceu. Mas a rotina é a mesma: o telefone toca até cair na caixa. Costumo não deixar recado, mas espero o bipe da secretária tocar. E é sempre a mesma indignação: por que você não gravou nenhuma saudação, nem ao menos o seu nome? Assim pode ser o telefone de qualquer pessoa. E é seu! Tinha que ter a sua voz! Eu não quero esquecer a sua voz. Odeio ter que fazer esforço pra lembrar como ela era.

Fui promovida no trabalho e o São Paulo finalmente ganhou. Tô precisando de uma calça jeans. Achei que você gostaria de saber, vovô.”

pai e malica

“Tava frio, isso eu lembro, porque você usava um gorro cinza, desses que tapam a orelha pra se proteger. E você tava todo empacotado, com alguns casacos e aquele cobertor de lã rosa em cima de você.

A gente devia ter pensado que o melhor mesmo era sair daquela sala, que sempre foi o lugar mais gelado da sua casa grande. Só que o frio não incomodou. A gente passou toda a tarde conversando, comendo e dando risada.

Por que a gente não fez isso com mais frequência? Talvez porque você sempre foi muito disputado. Nos meses em que esteve doente, então… Quando o bom senso cruel diz o que, pra mim, nunca fez sentido: “se prepare pra se despedir”.

Nesses dias minha mãe te monopolizava, no sentido mais doce e amoroso que essa palavra pode ter. A vovó tava sempre por perto, preparando os pratos que você agora tinha desejo em comer. Com o Fábio eram conversas de trabalho e por trás delas a tocha de homem da casa sendo passada. Meu irmão te roubava pra conversar sobre futebol ou pra contar que decidiu ser vegetariano – promessa que não durou nem um dia inteiro. E minha irmã, essa é esperta, te levava ao cinema. Programa que hoje, tenho certeza, faríamos semanalmente juntos.

Mas nesse dia a família me deu licença pra tarde ser só nossa. Entre uma fatia de goiabada e outra, você me contou da sua mãe, minha bisavó Silvinha, voz rouca que eu tive a sorte rara de conhecer. Quando você ia visitá-la, na hora de ir embora ela dizia: “Vem cá, filho. Fica um pouco mais que eu preciso te falar uma coisa séria”. Ao atender o pedido, a Vó Silvinha inventava uma bobagem qualquer pra reacender a conversa. “Era só pra eu ficar mais cinco minutos com ela, Maria”.

Você ficou em silêncio, com seu sorriso doce no rosto. “E agora são esses cinco minutos que mais me fazem falta”. Eu prendi meu choro e você soltou o seu. Foi o nosso momento mais próximo, mais íntimo, mais nosso.

Hoje é seu aniversário e na minha cabeça eu revivo aquela tarde amarela. No segredo que você me contou, no gosto do pão caseiro da vovó e quando o resto da família se juntou a nós no começo da noite.

Eu tinha essa outra lembrança, da gente tendo essa conversa com os pés na piscina. Não sei mais se ela foi inventada por mim ou assaltada da minha infância feliz. Acho que inventei, tava frio naquele dia.

O que sei é que naquela tarde finalmente entendi o que é se despedir. E hoje percebo porque na luta do dia-a-dia, os cinco minutos a mais fazem tanta falta. Espero que você tenha encontrado a paz do fim do mundo. Feliz aniversário, vovô.”

pai e lucca

“Há dois anos, viajei para Maresias com meus amigos. Eles foram embora um dia antes de mim e, na última noite, fiquei assistindo à TV com o Bito na sala. Só nós dois. Bito é um menino sensível e sensitivo. Sempre falou de você com muito carinho e uma propriedade que assusta. Mas, quando a gente pergunta se vocês conversam, ele muda de assunto. Nesse dia, esperançoso depois do convívio de uma semana, perguntei de você pra ele.

–       Bitão, e o vovô, hein? Você fala com ele direto? Queria falar com ele…

Ele sorriu e olhou pra baixo, meio envergonhado. Depois, falou:

–       Lucca, o vovô tá ali.

–       Onde?

–       Agora tá aí na sua frente. Todo de branco, sorrindo.

Eu estava sentado.

–       Na minha frente, Bitão? Se eu levantar, vou conseguir dar um abraço nele?

–       Vai.

Levantei e fiz o movimento para te abraçar. Sentei de novo.

–       Lucca, o vovô tá fazendo um carinho na sua cabeça.

–       Ah é, Bitão? Como?

Nessa hora, ele veio até mim e fez EXATAMENTE o mesmo gesto que você sempre fez: uma passada de mão rápida que desarrumava meu cabelo. Fiquei arrepiado da cabeça aos pés e – não sei como – segurei o choro.

–       Vovô é demais, né, Bitão? Sinto falta dele.

–       Sim. Lucca, ele falou que se você quiser ver ele, é só rezar que ele aparece. Em São Paulo ou aqui na praia.

–       Ah, jura, Bitão? Brigadão, vou fazer isso.

Essa história me marcou muito. Foi a vez que você ficou mais perto de mim nesses 4 anos e, por alguns segundos, aliviou a saudade.

Aliás, você sentiu o abraço? Porque eu senti.”

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Publicado em novembro 30, 2014 por e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , .