pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Gente espelho da vida, doce mistério

derek e periquito

Você não vai acreditar, mas gosto de pensar de como você iria entender esse nosso cotidiano tão diferente. Gosto de observar o mundo por você, por nós. E de imaginar como você iria rir e lidar com quem hoje faz parte dos nossos dias.

Tem tanta gente nova!

Precisei arranjar um mecânico por minha conta depois que você dormiu. Encontrei o Seu Pereira. Ele tem oficina perto aqui da minha casa. Meio descabelado, mãos com graxa, macacão jeans, é um mecânico típico. Pelo menos no horário comercial. Depois das seis, quando ele telefona, já é o pastor Arnaldo. De tempos em tempos, ele pergunta se pode ir orar pra você. E vai lá de cabelo penteado de lado, óculos de grau e camisa. Fala baixinho e te chama de amigo.

O Jair é o grande personagem dos nossos dias. Já te falei dele. É o motorista da mãe. Mas você também pode encontrá-lo costurando a bota dela ou decorando uma caixa de presente ou pendurando em lugares inimagináveis as luzinhas de Natal. A frase que ele mais fala pra mãe é Não esquenta a cabeça! E ela não esquenta mesmo e vai pedindo pra ele pendurar os enfeites no teto, achando que ele tem asas. Eu não acho, tenho certeza. Mas por motivos diferentes.

A Leide é a babá do Derek. E também dos dois passarinhos que o Derek adora e que andam soltos pela casa. O periquito agora mora na Árvore de Natal, perto do presépio. Por falar em presépio, a Leide, com a sabedoria da Paraíba, alerta que o Menino Jesus não pode desaparecer de jeito nenhum senão todo mundo da casa morre “alagado”. Na dúvida, o Derek pode levar os bois, cavalos e reis magos pra passear na caçamba de um hot wheels, mas nada de mexer no Menino.

A mãe precisava de uma companhia pra não passar as noites sozinha. Encontrou a Aive. Além de ótima companhia, é enfermeira. Prato cheio pra mãe que é chegada numa bula e em doenças exóticas – esses dias, estava com uma dor in-su-por-tá-vel na pele do lado esquerdo da coxa esquerda.

Aive é peruana e a única dificuldade da mãe é acertar o nome dela: Maibe, Maive, Aime, paraguaia. Fora isso, as duas se entendem perfeitamente. A mãe fala em portunhol e a Aive fala em espanhês. Trocam receitas, lembranças e assuntos esotéricos.

Sabe, Ita, durante um tempo, eu me desacostumei de ser feliz. Acho que a mãe também. Sem você e o pai por perto era como se a nossa felicidade fosse “clandestina”, pouco permitida. Mas não era justo com meus filhos, com os filhos do Fabio, comigo. E com você.

Como não ver graça e luz num mecânico meio Clark Kent, num motorista angelical, numa babá agourenta e numa enfermeira peruana? São essas coisas que enchem as manhãs de poesia. E fazem a espera mais leve.

“Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim”.

Anúncios

2 comentários em “Gente espelho da vida, doce mistério

  1. Bruna
    novembro 24, 2014

    Adoro ter essas novas pessoas na nossa vida. Mas o mais legal é que, histórias e falas que passariam batido por qualquer um, ganham status de crônica pelo seu olhar atento.
    Te amo!

    Ps: amo o Jair e a Aive também!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em novembro 23, 2014 por e marcado , , , , , , , , , , , , , .