pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Pensem nas feridas como rosas cálidas

Congresso Nacional e no Palácio do Planalto

Você não vai acreditar, mas vi um velhinho com o número dos campos de concentração nazistas marcado no braço. Bem impressionante.

Fui ao hospital com a Bruna e o Lucca, que precisava fazer uma radiografia do joelho. Me perdi dos dois e quando os encontrei, eles estavam na sala da espera do exame conversando com um senhorzinho. Ele aguardava pra fazer uma radiografia do pulmão. E alguém pra ouvi-lo.

Em poucos minutos, de um jeito cheio de sotaque e leveza, contou a vida. Era polonês, viveu por trás dos muros do gueto de Varsóvia, usou a estrela amarela e foi levado pra Auschwitz com a família quando tinha dez anos. Todos morreram.

Ele saiu de lá com quatorze anos, 1,80 m e 38 kg. E sem mais ninguém no mundo. Passou fome e viveu na rua. Em 1948, foi pra Israel e lutou na Guerra da Independência.

Veio pra Argentina, morou no Chile e está no Brasil há quarenta anos. É casado, tem dois filhos, dois netos e acha o Brasil o melhor lugar do mundo. “Aqui as pessoas gostam uma das outras e querem muito se ajudar.”.

Da guerra tem a marca no braço e a necessidade de dormir sozinho. Com pesadelos diários, se debate muito e já havia machucado a esposa algumas vezes com socos e pontapés.

O senhor Goldman disse que é feliz. Mas está cansado. “Duas guerras é muita coisa pra uma só vida.” Segurei o choro a conversa inteira – ah, esses meus choros fora de hora. Quando se despediu, falou pros dois nunca fumarem e continuarem sendo tão educados e bom ouvintes. Homem de ouro.

Achei tudo muito emocionante, parecia o relato de um filme, de um livro. Nunca me senti como naquele sábado à tarde tão perto da História. E de uma parte cruel e vergonhosa.

Esta semana pós-eleição muito se falou em separações, muros, minorias, maiorias, estrelas e ditaduras. Tudo regado a ódio de ambos os lados. Eu mesma reagi com raiva a comentários que julguei preconceituosos.

Espero que essa raiva seja só um dos equívocos porque não temos nem 30 anos de democracia e estamos aprendendo o que é.

O Cortella diz que não nascemos com o espírito de formação de uma nação. Porque o europeu veio para tirar e sair rápido; o indígena vivendo com a vontade que todo mundo fosse embora e o africano, trazido à força, querendo voltar para casa.

Acredito que ninguém esteja realmente querendo que as pessoas voltem a ser destituídas de seus direitos individuais e civis e limitadas em seu direito de ir e vir.

Manifestar-se é uma atitude transformadora e cheia de significados. Gritar palavras – ou escrever – cheias de ódio e segregação me assusta, não é uma História que eu quero viver pra contar.

E tô te contando todas essas coisas, Ita, porque acho importante a gente falar muito, ouvir muito e se informar sobre tudo, sobre todos os lados. Quero que o senhor Goldman tenha razão quando diz que os brasileiros gostam uns dos outros e querem muito se ajudar.

Um ditado chinês diz que se dois homens vêm andando numa estrada, cada um com um pão e, ao se encontrarem, trocam os pães, cada homem vai embora com um. Porém, se os dois carregam uma ideia e, ao se encontrarem, as trocarem, cada homem vai embora com duas.

Duas boas ideias pra mais gente ter pão.

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11 comentários em “Pensem nas feridas como rosas cálidas

  1. Desiree
    novembro 3, 2014

    nao sei nem o que dizer Be…seriam somente palavras levadas ao vento…:(

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  2. Juliana Navarro
    novembro 3, 2014

    ♥♥♥♥♥♥♥♡♡♡♡♥♥♥♥♥♥♥

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  3. cris
    novembro 3, 2014

    Como é bom conhecer a história do outro através de você!Sem palavras!Texto maravilhoso!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Eu tenho uma prima
    Que tem uma amiga
    Que tem um blog
    Que eu leio todo domingo…
    Quando é que eu me identifico com o blog de Bettina Bopp?
    Sim, quando eu insistentemente troco meu shampoo pelo condicionador,
    Quando por segurança vejo o muro alto de casa escondendo o jardim que eu mesma cuido, tendo sonhado com uma casa com cerquinhas branca,
    Quando meu filho encontra”homens de ouro”, que o elogiam e pedem para ele continuar a nunca fumar,
    Quando…
    Quando…
    Quando…
    E quando é que eu me identifico mais com o blog de Bettina Bopp?
    Quando ela em palavras, transborda amor à seu irmão Ita e eu lembro do meu irmão Arthur que partiu em 1996 aos 37 anos , mesmo lutando contra uma doença, na época cercada de preconceitos e raros recursos.
    E quando é que eu me identifico intensamente com o blog de Bettina Bopp?
    Quando no aniversário de 51 anos de Ita, ela diz que hoje em dia ele está, mas não está…e então eu inverto a ordem e digo que meu irmão Arthur hoje em dia não está, mas está!!!
    Este blog é lindo…infinitamente lindo!!!

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      novembro 4, 2014

      Nossa, que coisa mais linda! Fiquei muito, muito emocionada, Monica! Obrigada! Me identifiquei e quero ser sua amiga! Posso? Beijo

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      • Mônica Pacheco de Castro Gostek
        novembro 4, 2014

        Mas é logico que pode, vou te adicionar agora mesmo, beijo?

        Curtido por 1 pessoa

  5. Bruna
    novembro 5, 2014

    Nossa, mãe, que incrível e poderoso que é esse seu blog. Eu faço parte disso, então é inevitável me identicar. Mas seus relatos ultrapassam fronteiras e invadem outras vidas.
    Te amo!

    Curtido por 1 pessoa

  6. bettinabopp
    novembro 5, 2014

    Te amo, bubuminha!

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