pra quando você acordar

por Bettina Bopp

É improvável, é impossível

Ro

Você não vai acreditar, mas no último dia 9 fez 23 anos que o Rodrigo morreu. Você acredita que faz mais tempo que ele foi embora do que viveu?

Queria entender o que foi a vida dele…

O Zé e a Neusa eram bem novos, militantes e serem pais não fazia parte dos planos. Ela engravidou. Era improvável que o filho nascesse. Mas o Rodrigo nasceu em abril de 1970.

O Zé e a Neusa não formaram uma família. Família ele formou com a Nara, lá no Sul. Tiveram dois filhos incríveis, a Ana e o Theo, e  construíram a vida por lá. Era improvável, então, que o Rodrigo ficasse um primo próximo da gente. Mas ficou. E muito.

A gente cresceu como se o Rodrigo fosse quase um irmão mais novo, só que morando em outra casa. Muitas casas. Acho que era difícil pro Rodrigo saber qual espaço era dele. A nossa casa, a casa da avó de lá, a casa da vó Gilda, a casa do Zé, a casa do outro tio, a casa da outra tia. E tanta gente achava improvável que o Rodrigo achasse tanta novidade ruim. Mas ele achava.

Irmãos brigam. A gente brigava muito, por qualquer motivo. Mas tinham também as brincadeiras, a convivência, a cumplicidade. E quando o Rodrigo chegava, ele queria fazer parte daquilo. Aquilo que só se constrói no dia a dia. E então brigava demais, e comia demais, e gritava demais. Era improvável que a gente não entendesse o que ele queria. Mas a gente era criança como ele. E a gente não entendia.

Pra gente, ele era o primo-irmão mais novo que vinha passar o fim de semana em casa. Pra ele, a gente era uma rotina que ele não conhecia. Era almoçar na mesa, ter com quem conversar e brincar. Mas também era acordar cedo, fazer lição, tomar banho e comer salada. Era improvável que uma criança achasse isso tão bom. Mas ele achava. Rodrigo, quando dormia, nem fechava os olhos totalmente. A gente enchia, dizendo que ele parecia um jacaré. Talvez ele quisesse não perder mais nada e recuperar um tempo perdido.

Por outro lado, mesmo mais novo que a gente, Rodrigo era muito mais descolado. Andava a pé, pegava ônibus, passava o dia no clube. E era conhecido por todo mundo. E conhecia a cidade muito mais do que nós. A gente era cercado de medos e portões. Lembra de quando ele morou sozinho no interior? Era improvável um adolescente fazer isso. E ele foi lá e fez.

Nessa época, o Zé já estava com a Nara e as crianças no Rio. E o Cristiano já havia nascido. Formavam a família mais legal que eu conhecia. Eram próximos, carinhosos, inteligentes. Moravam numa vila em Ipanema e ouviam Beatles logo de manhã. Eu amava aqueles primos, aquele lugar. Era improvável que o Rodrigo conseguisse morar com Zé. Mas, então, ele foi.

Aquela era a família dele. Mas não era. Rodrigo era desajeitado nas relações. Demorou pra cada coisa encontrar o seu lugar. Demorou pro Rodrigo comer arroz integral. Mas tinha calma, tinha sabedoria. E tinha Beatles logo de manhã – and all you need is love.

Rodrigo foi crescendo e aparecendo. Virou um homem enorme, bonito, bronzeado e saudável. Espiritualizado e doce, veio pra São Paulo assim que o Lucca e a Maria nasceram. Queria conhecê-los. Me contou que havia sonhado com eles. Que um teria os olhos azuis da cor do céu e o outro os olhos azuis da cor do mar. Era coisa improvável, mas eles têm mesmo olhos assim.

Naquele almoço de domingo, Rodrigo contou pra vó Silvinha como a vida estava boa. Estava trabalhando, vendendo umas roupas de Bali pra todas as atrizes da Globo e que tinha muitos amigos. Morava com o Zé, mas ficava umas noites com o Ti pra Nara poder trabalhar no teatro. Contou como era próximo dos irmãos e apaixonado pelo Ti. Contou, emocionado e emocionando, que era amigo da Nara e que jantava sempre na casa dela. Tinha uma boa relação com o Zé e estava feliz.

Era improvável, mas foi a última vez que a gente viu o Ro.

Pouco tempo depois, numa quarta-feira na hora do almoço, começou a chover no Rio de Janeiro. Rodrigo havia chegado há pouco e estava no quarto. A janela estava aberta, molhando o chão. Ele sentou na janela, como sempre fazia, pra puxar a veneziana emperrada. Era improvável que ele se desequilibrasse e caísse. Mas caiu.

Não sei se foi um resgate de vidas passadas. Não sei qual o tikum ou carma que ele tinha de passar. O que sei é que é improvável que a vida do Rodrigo tenha sido só isso. É impossível.

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4 comentários em “É improvável, é impossível

  1. caio teixeira mendes
    outubro 12, 2014

    Bettina, quando aconteceu fiquei a saber através do meu Pai, o Doutor Bia, foi uma tristeza enorme. Parabéns pela lembrança bonita dele…

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  2. Bruna
    outubro 22, 2014

    Não foi só isso. E ele te escolheu como madrinha, por causa do bem que você fazia pra ele.

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Publicado em outubro 12, 2014 por .