pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Meu cachorro me sorriu latindo

Jazz

Você não vai acreditar, mas o Jazz era um cachorro que sorria. Sorria mesmo, sem exagero. Jazz foi, sem dúvida, o melhor cachorro que tive. E olha que a gente teve cachorro a vida toda. De vira-lata a dogue alemão.

Fora os outros bichos do nosso quintal. Peixes, porquinhos da Índia, coelhos, canários. Um pintinho colorido que virou um galo furioso, um pato que descobrimos que era pata quando começou a botar ovo na casa de cachorro e um jabuti que sumia durante anos e depois aparecia em lugares inusitados. Será que ele ainda está lá?

Tive até macaco. Três. No tempo que eram vendidos nos semáforos. No tempo que não se falava de ecologicamente incorreto nem de prazos de validade. Era um tempo em que havia mais estrelas. Tempo em que as crianças brincavam sob a clarabóia da lua. E o cachorro era um grande personagem.

O meu melhor cachorro foi um pitbull. Justo a raça que a mídia mais condena. Aquela coisa do preconceito e das falsas certezas socialmente partilhadas. Existe sim pitbull violento e mau caráter. Assim como advogados, médicos, políticos e dachshunds.

Lembra do Fred, aquele cruza de salsicha com demônio que tive? Então, ele é um caso típico de falha de caráter. Foi cercado de amor desde filhote, mas nada foi suficiente. Dissimulado, jogava baralho e jogo da memória com a Maria pra disfarçar, mas fazia xixi diariamente no meu travesseiro e mordia os amigos das crianças. Canalha, resolveu morder até a Bruna.

Me emociono com casos de cachorros na porta de delegacias e hospitais esperando os donos presos ou doentes. Cachorros só amam. Um amor desinteressado, que não se importa com suas quantidades: de dinheiro, de quilos ou de defeitos.

O Jazz sofreu com a gente nos tempos em que você esteve no hospital. Passou a morder as patas e a correr atrás do rabo. O veterinário disse que era depressão. Optamos pela homeopatia aos antidepressivos e ele aprendeu a conviver com a nossa tristeza.

Jazz era quase gente. Tem cachorro que é meio gente. Mas gente da melhor qualidade, senão seria um defeito. Tem cachorro que é só cachorro mesmo. Como o Folk. É doce, é simpático, é lindo, a gente ama muito, mas não é extraordinário. Ele, por exemplo, nem deve saber nada sobre você.

E por que vivem tão pouco pro tamanho do bem que fazem? Pergunta piegas, mas tão verdadeira. Por quê? Como uma ostra perlífera pode viver 70 anos e uma tartaruga dos Gálapagos 150 anos. Quem sentiria falta delas? (Comentário ecologicamente incorreto, como comprar macacos em semáforos.)

Esta semana trouxemos pra casa um novo morador. Um pitbullzinho todo branco. A gente esquece rápido da bagunça que eles fazem na nossa rotina. Choros de madrugada, sapatos e livros comidos, xixis pela casa. Mas nada supera aquele cheirinho da boca de filhote. Todos aqui de dedos cruzados para que o Indie seja protagonista do filme Jazz, o retorno.

O Jazz foi embora numa tarde de abril. Assim como o pai, sofreu de uma leucemia rara. Tinha só 8 anos e uma legião de fãs – foi até doador de sangue pra salvar a vida da cachorra da vizinha! No dia em que ele morreu, Maria escreveu um texto que definia a nossa profunda dor. Quer ler?

“Lá tem pizza de todos os sabores, daqueles tão deliciosos que nenhum chef no mundo vai conseguir criar. E as cadelas são de todas as cores e tamanhos: você vai fazer a festa sendo lindo desse jeito que você é.

Lá você finalmente vai conseguir pegar o monstro que vive embaixo do cobertor e do sofá e que agarra sua patinha. E quando você pegar, faça o favor de morder muito porque eu sei o quanto ele te infernizou.

Lá os campos são abertos e verdes, como os de Santiago, e você pode pular como um carneiro, como você sempre gostou de fazer. Lá você vai voltar a ser gordinho e forte, seus músculos vão voltar a aparecer.

Lá bate sol o dia todo, e é o sol das manhãs de outono, que te esquenta mas não ferve. E tem sombrinhas se você precisar, com água refrescante da torneira pra matar toda sua sede.

Lá as amanditas não te dão dor de barriga e você pode fazer uma salada bem colorida, com todas as plantas que você quiser que não tem problema.

Lá você pode pular em todos os sofás brancos que ninguém vai ficar bravo. Lá nunca tem fogos e trovões; nada ali vai te assustar. Tudo lá é bom, delicioso, com cheiro de filet mignon recém saído do fogão e macio como os melhores edredons que você deitou e deixou seu cheiro.

Fica bem lá, fica quentinho, fica em paz e descansa, porque lá você vai voltar a ser filhote e não tem nada melhor do que isso. E logo eu vou te encontrar. E você vai sorrir seu sorriso apaixonante e morder meu braço e eu vou matar toda essa saudade que já me corta o coração e me dá nó na garganta. Meu filhote, meu irmãozinho: nenhum lugar é melhor que lá, eu te prometo.”

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14 comentários em “Meu cachorro me sorriu latindo

  1. Juliana Navarro
    setembro 21, 2014

    Emocionante como sempre! Que o novo membro da familia traga muita alegria.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Márcia
    setembro 21, 2014

    Ai Bê!!!! A foto do casaco vermelho me fez viajar no tempo…. Amo ler vc! E bem vindo o novo amigo!!!

    Curtido por 1 pessoa

  3. lulicrespin
    setembro 21, 2014

    Pronto, mais um assunto escrito lindamente que sempre me leva as lágrimas, o Jazz
    E você sabe Ita que nem sou de chorar, depois que você dormiu então!
    O Jazz foi mesmo um cachorro mais que especial
    Meio gente meio cachorro, falava claramente com os olhos
    E tinha mesmo um lindo sorriso no rosto
    Agora imagina este texto que a Maria escreveu para ele, dito por ela para ele, um pouco antes dele partir
    Estava junto, e foi uma das coisas mais tristes que vivenciei
    Nestas horas a Maria mostra toda sua força, ela foi incrível
    Até a veterinária se emocionou com as palavras da Maria
    Ela carregou o Jazz no colo, com o corpo magro e frágil e foi falando como ele seria feliz no novo mundo até ele fechar os olhos e dormir
    ….. a gente vive e revive tantos momentos…
    Aquela casa da Bê que é um pouco minha, merece mais um branquinho que traga o amor incondicional dos cachorros sempre bem vindo e mais histórias que só lá e com eles acontecem
    Os personagens que todos se tornam ao entrar na vida deles, nos rendem tardes e dias de risos e conversas intermináveis
    Teve Jazz, tem Folk, agora Indie, sim precisamos de muita musica e latidos nos dias e noites
    Vamos criando mais uma trilha sonora para os dias cinzas, azuis, coloridos
    E as vezes um branquinho vem para fazer toda a diferença
    A alma dos cães são mais raras e especiais e vem sempre nos trazer algo de presente, além do amor incondicional

    “A amizade e a lealdade residem numa identidade de almas raramente encontrada.”

    Curtido por 1 pessoa

  4. Bruna
    setembro 21, 2014

    Meu amigo, meu amor, minha saudade. Que falta você me faz, Jé…

    Curtido por 2 pessoas

  5. bettinabopp
    setembro 21, 2014

    O Jazz amava vc, Bubu!

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  6. sueli
    janeiro 22, 2015

    Que coisa mais linda… Bettina, você deveria escrever um livro.. a gente lendo assim consegue fazer parte das suas histórias..tudo bem que sou chorona..e chorei aqui também !

    Curtido por 1 pessoa

  7. Daniela Durante Slavic
    setembro 23, 2015

    Bettina, seus textos são maravilhosos! Fico sempre esperando o próximo! Adorei esse sobre o Jazz. Como sou chorona, chorei muito com o texto da Maria. Vcs tem o dom de escrever e de inspirar e emocionar. Parabéns! Bjs

    Curtido por 1 pessoa

  8. Erica
    outubro 21, 2015

    Ah Betina, como você pode derramar seu coração assim e encher o meu de coisas tão lindas?
    Espero que você possa sentir toda essa emoção que você passa pra gente, mas desejo que isso não te deixe triste… Que você consiga perceber a beleza que colca na vida da gente que te lê…

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    • bettinabopp
      junho 6, 2016

      Erica, querida, só hj percebi que minha resposta não foi salva. Sinto e também me emociono com tanto carinho. Obrigada. Bj

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Publicado em setembro 21, 2014 por .