pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

Você não vai acreditar, mas ontem sofri bullying numa feira de adoção de gatos. Pois é. O que você está pensando, aconteceu. Seis meses depois de ter sido atropelada, minha queridinha Gatô desistiu e foi embora nesta semana triste. Apesar das sessões de acupuntura e de fisioterapia, ela não deu conta de não ser mais ela, de ter virado uma sereia e não conseguir mais andar.

Voltando ao bullying… hoje em dia gatos já fazem parte da minha estrutura familiar e emocional. Até o Folk sente falta deles. Fui, então, a um lugar de doação de gatinhos, disposta a pegar até dois. Lidava com certa vaidade em tirar um animal do abandono e dar pra ele, ou pra eles, um novo lar.

Chegando lá, uma senhora estava com um gato lindo no colo. Me aproximei, aberta a novas amizades. Ela me perguntou se eu já tinha gatos. Contei que minha gata de sete anos havia morrido. Ela me perguntou como e eu, inocente, disse que ela tinha sido atropelada e depois disso nunca mais ficou boa.

Essa senhora chamou uma das responsáveis pela ONG pra me atender e quando a protetora chegou bem perto, a senhora falou alto: “Ela mora em casa e a gata dela foi atropelada e morreu!”. Todos os olhares se voltaram pra mim. Sabe quando a gente sonha que vai pelado pra escola? Então, me senti assim.

Um rapaz que fotografava os gatos parou e me olhou com ar de repreensão. Um casal se afastou como se eu fosse assassina de gatos e a protetora balançou negativamente a cabeça e disse, de forma áspera: “Esquece, pra quem mora em casa, não dou gatos”.

Sem-jeito, justifiquei que o atropelamento havia sido um acidente, que eu cuidava bem dela, que também estava sofrendo. Ela nem me ouvia. Já um pouco irritada, perguntei se era melhor gato em gaiolas minúsculas ou em uma casa. Ela, então, me aconselhou: “Se quer adotar um gato, não conte que mora em casa.” Ou seja, minta para ter um gato.

Sai de lá sem o gato e com ódio – ah, esses pecados capitais…

Fiquei pensando nesses dois lados da balança em que a gente vive se equilibrando. Ser a favor de ter um gato sem limites delimitados me levou a ser julgada como irresponsável. E falar a verdade, a não poder adotar um gato.

Ontem só conseguia ver a atitude da protetora como arbitrária, prepotente e preconceituosa. Hoje já penso que existe um grande risco mesmo em doar um animal pra qualquer um – e pra ela eu era qualquer um e da pior espécie.

Ontem só conseguia ver a atitude da senhora com o gato no colo como de alguém desocupado e fofoqueiro, louco pro circo pegar fogo. Hoje já acho que é uma senhorinha solitária e que encontra nos gatos a melhor companhia.

Assim como pra Gatô, que caçava maritacas e sabiás, subia em árvores e telhados, atravessava muros e ruas, ser livre custou um atropelamento e uma vida diferente.

Assim como você, Ita. Que viveu intensamente cada minuto, que estendeu o quanto pode a juventude, que escolheu aproveitar tudo ao redor, que amou e foi amado incessantemente, que fez um milhão de amigos sem distinção entre presidentes e motoristas, que viu milhares de vezes o sol nascer antes de ir dormir, que deixou pra depois algumas coisas importantes. Embora eu não tenha conseguido resignificar esta sua nova vida, sei que de alguma forma você ainda está no controle. E eu estarei sempre aqui

O acaso vai te proteger enquanto eu andar distraída.

PS Ainda quero um gato!

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8 comentários em “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é

  1. lulicrespin
    agosto 24, 2014

    Chegou só agora o texto Ita
    Fim de domingo, com uma notícia triste
    A Gato, se foi
    Sei que ela estava mal, mas amo tanto todos estes seres que dizem ser irracionais e são mil vezes melhores que tanta gente que se diz racional
    Ter gatos para a Bê foi um avanço no mundo
    Ter duas e ama-las enlouquecidamente para quem tinha um medo absurdo é o máximo
    Nós adotamos um gato aqui no prédio também
    Estava na rua e começamos a alimenta-lo
    Nos o castramos, vacinamos e ele vive feliz e livre aqui no prédio
    Come na minha casa, na portaria com o Giovanne e na Chris agora que a gatinha dela também se foi
    Dorme lá, aqui, no sofá do Hall e vai dar suas voltas
    Um animal feliz, muito feliz e bem cuidado
    Infelizes os que negaram uma gato pra Bê
    Hoje a burocracia é tão grande em tudo que perdemos mais tempo entre os trâmites que realmente vivendo e aproveitando
    Se realmente pensar que se não for como algumas pessoas acham que deveria ser nada dará certo
    Temos o hábito de pensarmos e se?
    Se tivesse parado de fumar Ita?
    Se se alimentasse e dormisse melhor?

    Se eu tivesse insistido naquela semana em que você dormiu em te ligar e que não consegui falar com você?
    E sê?
    As fatalidades acontecem quando tem que acontecer
    Tudo acontece na hora e momento certo, mesmo que nos deixem profundamente tristes

    Tem as 4 Leis da Espiritualidade ensinadas na Índia

    A primeira diz:
    “A pessoa que vem é a pessoa certa“.

    Ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas ao nosso redor, interagindo com a gente, têm algo para nos fazer aprender e avançar em cada situação.

    A segunda lei diz:
    “Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido“.

    Nada, absolutamente nada do que acontece em nossas vidas poderia ter sido de outra forma. Mesmo o menor detalhe. Não há nenhum “se eu tivesse feito tal coisa…” ou “aconteceu que um outro…”. Não. O que aconteceu foi tudo o que poderia ter acontecido, e foi para aprendermos a lição e seguirmos em frente. Todas e cada uma das situações que acontecem em nossas vidas são perfeitas

    A terceira diz:
    Toda vez que você iniciar é o momento certo“.

    Tudo começa na hora certa, nem antes nem depois. Quando estamos prontos para iniciar algo novo em nossas vidas, é que as coisas acontecem

    E a quarta e última afirma:
    “Quando algo termina, ele termina“.

    Só o verdadeiro amor é infinito
    ❤️

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    • bettinabopp
      agosto 24, 2014

      Descobri que sou politicamente ou ecologicamente ou gatologicamente incorreta, Lula! E vc comprova a primeira lei: a pessoa certa! ❤

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  2. Bruna
    agosto 24, 2014

    Saudade dela na savana particular, tomando solzinho, mal-humorada com o Folk. Ela foi feliz. E o próximo integrante também será. Vamos esfregar na cara daquelas idiotas.
    Te amo!

    Curtido por 1 pessoa

  3. bettinabopp
    agosto 24, 2014

    Saudade também! Colocaram a gente pra correr, né, Bubu?!

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  4. Ricardo D'Elia
    agosto 26, 2014

    Bettina, com seus textos inteligentes já me acostumei, mas com a emoção que eles carregam, ainda não.
    Parabéns!

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    • bettinabopp
      agosto 26, 2014

      Ah, Ricardo, se todos fossem iguais a você, que maravilha viver! Obrigada, querido!

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  5. Nina
    agosto 30, 2014

    Bettina,
    O Paul do Gávea me trouxe aqui, mas acho que ele não sabe. Sou ex-Gávea também, estive em julho na Alcobaça de Laura – o que me fez querer tecer na memória aquele tempo tão rico e generoso. Sinceramente minha memória de menina na época não me ajuda muito e não sei se lembro de você como aluna ou professora.
    Acompanho seus textos todos os domingos. Os seus e os do
    Antônio Prata, neto da Laura.
    Hoje resolvi deixar um comentário. E um agradecimento. Obrigada por fazer paralelos tão belos, as vezes tristes, nunca desumanos, sempre esperançosos. Obrigada por tentar ‘ser’ todos os dias, por se deixar abater – e se reerguer sempre que possível .
    Seus textos são incríveis. Eu não gosto muito de gatos, mas eu torço sim para que tão logo haja um novo morador na sua casa. Será um privilégio para o bichano.
    Bjs
    Nina

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    • bettinabopp
      agosto 30, 2014

      Nossa, Nina, que querida você! Tão generosa e doce! Muito, muito, obrigada! Seu comentário me fez bem feliz! beijo grande!

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Publicado em agosto 24, 2014 por e marcado , , , , , , .