pra quando você acordar

por Bettina Bopp

A girl with kaleidoscope eyes

foto

Você não vai acreditar, mas a Maria me mandou este e-mail no sábado passado.

email+maria

“Mãe, vc não vai se despedir do blog.

Eu te proíbo.

Eu juro por tudo.

Vc não tem desculpa pra parar. Sem inspiração é uma bobagem, mãe. Sem inspiração, my balls. Se vc for roteirista e escritora, vc tem que escrever diariamente e ponto, f #@$% a inspiração. Senta a bunda na cadeira e escreve. Vc tá de férias. Vc tem tempo. Vc gosta de escrever.

Isso não está aberto pra discussão. De verdade.

Se orgulhe, nos orgulhe e continue tocando isso.

Não vou discutir com vc sobre isso, hein? É sério. Vc engula suas desculpas todas. Esquece.

Beijos”

Porque foi assim: passei a outra semana com muitas dúvidas sobre o que escrever no blog. Achei que as coisas já tinham sido ditas e eu estava me repetindo. Crise criativa. E sempre antes de postar alguma coisa, mando para os meus três filhos, que são, certamente, meus maiores críticos. Pro bem e pro mal. Levo muito em consideração a opinião deles.

Bom, o texto que escrevi já tinha até título Para abrir a rosa: temporada. E eu terminava dizendo: “Revisito os textos do blog e vejo que há ainda muito pra contar. Mas tudo isso que poderia contar, também poderia esperar. E assim, como nestas séries que me viciei, termino aqui a primeira temporada das conversas com você, Ita”.

Não seria uma parada definitiva. Seria um fôlego, um tempo de reciclagem. Tempo pra abrir a rosa, outras rosas.

Mandei pra eles no sábado à noite e cada um reagiu de uma forma. Bruna entrou no meu quarto e, de um jeito que só quem conhece a Bubu saberá do que estou falando, me falou das tantas coisas que ficaram por dizer. Articulada, levantou uma lista de pautas pros próximos textos e disse antes de sair pra jantar: “Muda o final agora, pra eu reler quando voltar, tá?”

Lucca me mandou um torpedo – sim, sou ainda uma pessoa que não tem whatsapp e me correspondo (?) por torpedos – escrito assim: “Não para de escrever!!!!!”. Sei a força que tem estes cinco pontos de exclamação. Ele queria mesmo que eu continuasse e tinha a certeza de que eu iria obedecê-lo.

Maria estava viajando e me mandou esse e-mail. Acho que nem preciso comentar que ela estava muito brava. Reformulei o final e postei o texto sob novo título: O tempo acordado de viver.

“Eu te proíbo”, “Não para de escrever!!!!!”, “Isso não está aberto para discussão”, “Muda o final agora, pra eu reler quando voltar”. Tenho pensado em que momento passamos a falar no imperativo com nossos pais. Quando é que atravessamos a fronteira de filho e avançamos pro outro lado?

A mãe mesmo me diz que tenho mandado muito nela. Me chama de madre superiora, coronel… Agora pergunta por quê? A mãe só faz o que quer, do jeito que ela quer e – mesmo se recuperando de uma fratura em uma vértebra, outra no fêmur e da colocação de uma prótese no quadril – insiste em regar o jardim de noite, arrastar vasos e correr pra tirar a roupa do varal quando chove.

Foi no aniversário da Bruna do ano passado. Combinamos de comemorar só a família lá na sua casa, por causa das crianças do Fabio. Já estava tudo comprado, preparado, mas a mãe inventou de fazer mais 32 patês de última hora. “A Bruna gosta do meu patê de azeitona”.

Azeitona preta, azeitona verde, azeitona preta com verde e mais 29 variações depois, acabou escorregando na cozinha, caiu e quebrou a perna e uma vértebra.

Ainda disse que não tinha sido nada, excepcionalmente ficou mais quieta e passou a noite com a gente. Só no dia seguinte resolveu ir até o hospital dar uma olhada e precisou ser operada às pressas.

Assim como na quantidade de patês, a mãe exagera nas dores que tem, você sabe. Desde quando a gente era pequeno nunca era só uma enxaqueca. Pra ela era sempre uma coisa muuuuito pior: “Uma dor que nunca tive!”.

Desta vez não foi diferente. Uma semana depois, quando o médico perguntava de zero a dez quanto estava a dor, ela dizia: “Um milhão!”. Assim, o médico pediu para uma anestesista, especialista em dor, medicar a mãe. Receitou uns remédios que ela nunca tinha tomado – remédios novos ela A-D-O-R-A.

A mãe ficou bastante sonolenta nos primeiros dias, mas a anestesista disse que era normal.

Dois dias depois, numa sexta-feira, a mãe recebeu alta e voltou pra casa. Uma enfermeira iria acompanhá-la nas primeiras semanas.

Domingo, quando chegamos pra almoçar, a enfermeira me avisou que ela não estava bem. Corremos pra vê-la. A mãe falava coisas desconexas e insistia em amarrar na cintura um cinto estampado que não combinava com nenhuma roupa do mundo!

Era o começo de mais uma história que eu tenho a sensação de que só acontece com a gente. Começamos a nos organizar pra levá-la pro Pronto Socorro. A mãe ria, falava se a gente iria almoçar em Ubatuba, se o biscoito que ela vendia já estava pronto, perguntava por que a Isabella tinha movimentos peristálticos…

Chegando ao hospital, já no primeiro atendimento, o médico descartou qualquer coisa mais grave, mas precisava investigar o que era.

A mãe continuava falando pérolas: “Olha que bonitinhas essas bonecas penduradas nas prateleiras”. Eu olhava em volta e só via os ganchos da cortina do box do PS. “Será que eles deixam a gente levar pra casa?”

“Quem é esse menino fazendo ginástica aqui do lado?” O “menino” era o suporte do soro.

A Bruna estava ao lado da maca, de mãos dadas com ela. A mãe olhou firme pro braço da Bruna e deu um tapa em uma pinta: “Um bicho enorme no seu braço, filhinha!”.

Quando uma enfermeira entrou, a mãe perguntou se o tio dela tinha se machucado muito no atropelamento. Avisei que ela estava falando coisas desconexas. Mas a enfermeira se emocionou: “Nossa, ela lembrou. Que memória!”. A enfermeira disse que era ela quem tinha atendido a mãe três semanas antes e que tinha comentado sobre o tio atropelado. Decerto a enfermeira achou que quem falava coisas desconexas era eu. Em seguida, a mãe perguntou por que colocavam coco ralado no teto do hospital.

Para distraí-la, o Lucca emprestou o iPod dele para mãe, que começou a cantar alto. Nisso, a Maria entrou no box e, ouvindo a cantoria no último volume já no corredor, perguntou, disfarçando: “Is she tripping?”. O Lucca respondeu que naquele momento era só o iPod.

Ficamos o dia inteiro no hospital. A mãe variava entre assuntos com sentido e viagens de ácido. O médico avisou que poderia demorar até sete dias pra desintoxicar dos medicamentos, mas ela na mesma noite já foi voltando ao normal.

Voltamos pra casa quase uma da manhã. Ao descer do carro, a mãe perguntou quem eram as duas menininhas de pijama sentadas no muro. “Ah, é a Conceição e a Emanuela”, ela mesma respondeu, olhando para o muro vazio e se despedindo das últimas alucinações.

Acho lindo um texto do Fabrício Carpinejar que diz, entre outras coisas, que “há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

(…) Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro. A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

(…) A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

(…) Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus. (…) E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida.

(…) Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento.”

A mãe continua fazer – além dos patês – só o que quer. E eu também, exceto os patês. Teimosia é certamente hereditária. Eu sei e meus filhos sabem.

PS. Meu imenso respeito e amor pelos pais que têm visto o mundo com olhos de caleidoscópios e pelos filhos que amam e cuidam deles.​

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23 comentários em “A girl with kaleidoscope eyes

  1. Juliana Navarro
    julho 27, 2014

    Lindo e emocionante como sempre. Não nos abandone e acima de tudo, não abandone este dom maravilhoso que tem. Um grande e carinhoso abraço com desejos de uma semana cheia de luz!

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  2. suzanna
    julho 27, 2014

    Betina, querida, é sempre muito bom e emocionante te ler. Dentre outras coisas, deixa Rio e São Paulo mais próximos. Acabo recontando para o Theo e as meninas as suas histórias. É uma alegria acompanhar a vida de vocês e curtir a família linda, sensível, unida e talentosa que vocês são. Também dá uma dorzinha por não estarmos mais próximos e não dividirmos, um pouco que seja, as alegrias e agruras. Não preciso dizer que adoraria que continuasse! Mas entendo o momento de cada um, os tempos que às vezes precisamos nos dar, e imagino também o quanto de alma você acaba doando para todos nós nesses textos…Beijos em todos!

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    • bettinabopp
      julho 28, 2014

      Su, minha linda, ter vc na família é uma das nossas grandes sortes! Theo não poderia ter feito escolha melhor! Saudade imensa de vcs, mas estamos bem animados com a festança! Quem sabe conseguimos! bj em todos vcs

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  3. Roberta Ferreira
    julho 27, 2014

    Amiga Querida,

    Tenho que concordar com a Bruna, com a Maria e com o Lucca, eles tem toda razão , não para não !!! Seus textos são deliciosos de ler, e vc não tá se repetindo não , leio todos, todos os domingos , e adoro!! Assim como eu, imagino que muita gente adora, portanto, agora que vc já conquistou tantos fãs, continua!!! Bjs

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  4. Lulicrespin
    julho 27, 2014

    Quando a Bê falou que queria para o Blog, que faria por temporadas, eu falei nem pensar.
    Ela demorou mais de 8 anos para começar a escrever para você Ita e para mostrar um pedaço bem pequeno do talento que ela tem em escrever
    Sim, porque o que tem no blog é muito, muito pouco perto de tudo que ela já fez e tem para fazer
    Na verdade o que a BuBu falou de que tem tantas coisas para contar ainda é a mais pura verdade
    Tem inúmeras historias, engraçadas como essa com sua mãe, como as mais emotivas e profundas.
    Sim, continuamos chorando de rir, mas passamos a chorar muito, por quase tudo
    Historias tem, o que talvez falte é tempo
    A Bê tomou o lugar de lider da casa
    Desde que você dormiu ele sabia de todos os documentos, segurava as pontas, tomava decisões, cuidou do seu pai quando esteve doente e cuida agora da sua mãe
    Sei que existe a inversão com o tempo, filho cuidar da mãe
    Mas a Maria Elvira, nunca deixou de cuidar de ninguém, mesmo agora precisando tanto de ajuda
    Ela com dificuldade e dor, se envolve na cozinha entre as panelas e o fogão, pois precisa fazer a farofa do Fabio, o risoto do Lucca e o suco de maracujá da Maria
    Ela não falou, gente estou cansada e agora quero que cuidem um pouco de mim
    Ela simplesmente, foi tendo lesões no corpo que sempre carregou tudo e precisa agora ser mais cuidada
    Porque, não imaginar que ela queira ser realmente mais cuidada por todos, talvez não com tantas limitações
    Não é fácil para ela
    Não é fácil para a Be
    Mas elas caminham juntas sempre
    Mesmo que a forma de caminhar tenha mudado,
    Afinal tudo mudou muito mesmo
    Só o amor que não mudou, amor não muda, amor permanece, amor se adapta as circunstâncias
    O amor é o combustível que une todos, todos os dias

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  5. Paula Toledo Morelli
    julho 28, 2014

    Be, você não deve parar nunca de contar histórias, coisa que você faz e fez, sempre muito bem. Era uma delícia chegar na escola segunda-feira e ouvir todas as coisas que você contava sobre o fds, com muito humor e emoção.
    bjs
    Paulinha

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  6. Bruna
    julho 29, 2014

    A nossa relação comporta o imperativo e o infinitivo. Comporta os mandos e desmandos. Gritos e diálogos. Sorte a nossa por termos crescido com essa liberdade. Sorte a sua por ter a vovó como mãe. Ela, que, como sempre, rende histórias de amor e risadas.
    Amo vocês!

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  7. wilton ormundo
    julho 29, 2014

    Bettina, só agora descobri, pela nossa Bubu, este seu espaço de escrevinhações. Por razões que não gostaria de revelar agora, tudo me comoveu… descobri ao longo da vida que escrever não é revelar; ao contrário, é re-velar. Nesse ‘jogo de esconder de novo’, que é a escrita, abrimos as brechas para a entrada do outro. E é essa entrada que, na minha opinião, revela. Que orgulho de você e de sua coragem. Um beijo carinhoso.
    Wilton

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    • bettinabopp
      julho 29, 2014

      Acho que nem vou dormir! Ter vc como leitor é privilégio demais! Tudo lindo o que vc fala, o que pensa, o que provoca! Que importância vc tem na vida da nossa Bubu e da nossa Maria! Obrigada pra sempre! Bj

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  8. Leticya Ghigonetto
    julho 29, 2014

    Bê, a Giulia me mostrou seu blog.Nossa simplesmente emocionante! Sensível e especial.Não deixe de escrever.Vc transborda amor nas suas palavras….

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  9. Gabriela Proença
    julho 30, 2014

    Conheci o blog a poucas semanas pois uma amiga comentou. Entrei para ver como era e em uma única ‘sentada’ li todos os pots. Um mix de choro e risos, que me fizeram repensar em vários aspectos da vida. Você é ótima escritora, irmã, mãe, filha… Acho que você escreve com a alma, por isso é fácil sentir suas mensagens!
    Por favor, não pare, nos também precisamos das suas palavras!

    Muita luz!

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    • bettinabopp
      julho 30, 2014

      Ah, Gabriela, que post mais carinhoso! Fiquei feliz! Às vezes a gente nem se da conta que um comentário tenha tanta importância pro outro! Vc é muito generosa! Obrigada

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  10. cris
    julho 31, 2014

    Bê, que história é essa de parar ou de temporadas?
    Por favor, imploro também, não pare de escrever!! Vc não imagina como suas palavras alimentam minha alma e ,imagino ,a de muitas pessoas. Na volta das férias pensei: ah , tenho que ver minha caixa de mensagens, sinônimo de volta ao trabalho… mas há algo especial que quero ler 😮 novo post da Bettina.Esse era o meu incentivo.Acredite. É como um ritual para todos que acompanham seus lindos textos. E você sabe como são importantes os rituais…

    Muita energia e força sempre, guerreira!!

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    • bettinabopp
      agosto 1, 2014

      Cris, querida, vc sabe como é importante pra mim sua leitura e comentários! Gosto muito das nossas conversas sobre o blog, os filhos, os livros…Bj

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  11. Pati Penteado
    agosto 5, 2014

    Ainda bem que temos Bubu, Lucca e Maria para impedirem Bettina de fazer essa loucura de parar de escrever…. obrigada filhos!!!
    Agora Be, não dá voltar…. como viver sem seus textos??? Impossível!

    Curtido por 1 pessoa

  12. Márcia
    agosto 17, 2014

    Bettina! Eu não tinha idéia do pq sua mãe tinha sumido! Falamos nela a semana toda…. Como ela está??? Vc escreve de forma a tornar tudo um sonho…. Amo sua mãe…

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    • bettinabopp
      agosto 17, 2014

      Ela tá bem, Márcia, apesar das dores nas costas! No texto relato este susto que tivemos no ano passado, mas agora já virou mais uma história pra gente rir! E ela também ama muito você! Bj, querida

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Publicado em julho 27, 2014 por e marcado , , , , , , , , .