pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

Você não vai acreditar, mas já faz dez anos que a vó Silvinha foi embora. Estou separando umas coisas do escritório e selecionando os livros que queremos manter nas prateleiras. Não sei se já te contei que fiquei com toda biblioteca da vó Silvinha. Pois é, fiquei.

Tem livros da Cora Coralina, Érico Veríssimo, Mario Quintana, Guimarães Rosa, Frei Beto, Raquel de Queiroz, Drummond… e muitos dos favoritos Rubem Fonseca e Josué Guimarães. Autores estrangeiros têm bem poucos: Saramago, Fernando Pessoa, Noah Gordon.

E tem preciosidades: Cobra Norato autografado de um jeito fofo pelo tio Raul, os livros do Zuza com dedicatórias carinhosas e, a cada livro, descubro escritos dela. Vó Silvinha escreve reflexões e pensamentos sobre a leitura, além de sempre escrever de quem foi o presente.

Hoje de manhã peguei um do Jorge Amado, que estava na dúvida se guardava ou doava. Abri e li o que estava escrito.

livro vó silvinha

Não é a prova máxima do amor? Vó Silvinha tinha esta capacidade de fazer com que cada pessoa se sentisse única e verdadeiramente amada. Eu, por exemplo, sempre me considerei a preferida. E acho que você, o Fabio, a Fe e o Lu também achavam que eram. Assim como cada sobrinho, irmão ou amigo. E cada bisneto.

Ela dava uma importância para o outro como poucos, sendo da família ou não. Pra cada um tinha uma palavra de carinho ou uma oração poderosa ou um envelopinho com dinheiro “pra comprar um pé de meia”.

Era uma avó diferente. Apesar da fé, não tinha nada de carola. Maria e Maria Madalena tinham sua admiração muito mais por serem mulheres fortes do que pela santidade.

Também não era uma avó quituteira. Aliás, a habilidade culinária herdei dela. “Neneca, nascemos pro salão e não pro fogão”, brincava. E no salão, falava com naturalidade sobre política, sexo, literatura e espiritualidade.

Não me lembro dessa amargura que ela cita no texto, você lembra? Porque a vó Silvinha era leve. Mesmo tendo sofrido preconceito por ser filha de pais separados numa cidade pequena como Resende. Mesmo tendo meningite aos sete anos e ter sido desenganada pelos médicos. Mesmo tendo desaprendido a andar, falar e ler e, como sequela, ter perdido uma vista.

Vó Silvinha escolheu ser feliz. Amava os irmãos do segundo casamento da mãe, como os do primeiro. Enganou os médicos e tornou-se leitora voraz, sem nunca, até o fim da vida, usar óculos. Encontrou um grande amor, meu Itinha, e foi embora com ele, desistindo de casar com o filho rico do dono do cartório da cidade.

Fico pensando em como seria uma tarde com ela nos dias de hoje. Teria assistido aos jogos, mas não daria essa importância toda aos 7 a 1.        “Vergonha é outra coisa. É preconceito, é enganação. Foi um jogo.” Mas completaria: “Esse Parreira é um bestalhão”.

Teria gostado das manifestações de 2013, das pessoas debatendo na rua, de forma pacífica e humorada, questões importantes. Mas ficaria preocupadíssima se a gente estivesse lá, por causa dos abusos de poder e da violência de alguns grupos.

Vó Silvinha sempre tinha uma visão otimista do Brasil. Decerto citaria uma entrevista do Mario Sergio Cortella, que foi meu professor na PUC. Ele diz que “somos um país que tem 513 anos, mas que não tem 30 anos de democracia. Temos de resgatar três grandes valores relacionados com a vida comunitária. O primeiro é a solidariedade, que nos afasta do individualismo exacerbado. O segundo é a paciência, o tempo de maturação da convivência. O terceiro é a generosidade. A pessoa generosa é aquela que partilha.”

Talvez falasse das declarações do Frei Beto sobre o direitista visceral e o esquerdista fanático, que diz que “os dois padecem da síndrome de pânico conspiratório”.

Vó Silvinha gostava de uma polêmica. Mas aquela que faz pensar, faz escolher, faz formar o próprio pensamento. Criticaria a mídia suja que apavora, envenena com pensamentos rasteiros e ofensas pessoais.

“Agora vamos mudar de assunto. To com saudade dos meus lindos. Quer um pedaço de bolo, um leitinho?”. E assim passaríamos o resto da tarde de mãos dadas – mão gelada, com textura de papel de seda – sentadas no sofá da sala dela. A conversa seria interrompida, vez ou outra, por um suspiro fundo e com a frase: “Ah, Neneca, eu te amo!”

Ah, vó Silvinha, eu te amo. E que falta você me faz…

Ela foi poupada de te ver assim. Mas fico pensando que se, em 1988 ela pediu “ao menino Deus que o recompense fazendo da sua vida um eterno Natal”, por onde quer que você esteja, Ita, têm luzes coloridas à sua volta, música, sentimentos nobres e renascimento.

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12 comentários em “Quem não a conhece não pode mais ver pra crer

  1. Roberta Ferreira
    julho 13, 2014

    Querida Bê,

    Eu tive o prazer de conviver com a sua Vó Silvinha, e com toda sua família tão querida , ela era um doce de pessoa, muito carinhosa, eu tb achava que vc era a preferida , hahaha, lembro muito bem dela e da Vó Gilda, chamando a gente pra jantar, as vezes tinha sopa de feijão , lembra?
    Muito legal esse achado do livro, com as anotações dela…

    Bjs, Robi

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      julho 13, 2014

      Robi, minha querida, eu também tenho certeza que era a favorita, mas deixo que os outros netos pensem assim! A sopa de feijão da minha mãe continua famosa e os filhos do Fabio adoram. Assim como adoro ter você por perto através dos textos. Obrigada e um beijo grande, minha linda!

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  2. lulicrespin
    julho 13, 2014

    Vó Silvinha era sábia
    Sabia um pouco de tudo em qualquer assunto
    Não sei quantos anos a Vó Silvinha tinha desde sempre, ela sempre era igual, doce, alegre, carinhosa, cabelos negros, penteados, batom nos lábios
    Ela que me contou que o dia do meu aniversario era uma data linda
    Dia de Zumbi o senhor dos Palmares
    Depois que ela me contou, eu tinha mais orgulho do meu aniversario
    Tirar uma foto dela era quase uma missão secreta
    Ela não gostava e fugia de todas, sempre com um sorriso no rosto
    Ela nunca demonstrava fraqueza, apenas deu uma caída e passou a ter tristeza nos olhos quando o vo Ita se foi
    Eram namorados eternos, amor de muitas e muitas vidas
    Vó Silvinha morreu na ante véspera de natal de 2004, depois de 9 meses em coma consequência de um AVC
    Lendo a dedicatória que ela escreveu no livro para você
    É como se ela soubesse que no natal de 2004 vc não iria querer participar das comemorações
    Com a morte dela, você profundamente triste se trancou no quarto depois de escrever uma carta para ela e se negou a descer e comemorar mais nada
    Nada nem ninguém te convenceu de descer
    Era o ultimo natal antes que você dormisse
    Antes de me imaginar ter insistido mais para que você descesse penso que as coisas da vida, o que não sabemos e não explicamos tem toda a sabedoria e o porque de acontecer, so me cabe tentar mudar o hoje
    E assim sem a presença dela e sem você descer do quarto, nossos natais seguiram e seguem até hoje
    A amargura que ela nunca teve, na verdade, era a sua amargura por ela ter partido, dons sábios da Vô Silvinha
    Sabe Ita, essa família tem muitos heróis, sinto saudade dos que se foram
    Sinto saudade do herói que dorme
    Sinto saudade de como éramos todos juntos

    “Deixa tudo que eu não disse mas você sabia
    Deixa o que você calou e eu tanto precisava
    Deixa o que era inexistente e eu pensei que havia
    Deixa tudo o que eu pedia mas pensei que dava”
    ❤️

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      julho 13, 2014

      E seus comentários, Lula, complementam o texto, dizem o que faltou dizer e me deixam feliz.! Te amo ❤

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  3. Bruna
    julho 13, 2014

    Uma mulher à frente de seu tempo. Falava sobre tudo e sobre todos com tanta sabedoria, que só me resta dizer que foi sorte e privilégio ter convivido com ela.
    Que delícia que é encontrar seus escritos na última página dos livros. O que ela escreveria ao terminar de ler o seu, mãe? Eu aposto em algo que misturasse orgulho e amor.
    Te amo!

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    • bettinabopp
      julho 13, 2014

      A história do meu livro é do jeito que ela me contava a lenda das três laranjas. Vó Silvinha me deixou tesouros. Te amo, Bubu

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  4. Luis Henrique M. Pimentel
    julho 15, 2014

    Ela era especial. Quando éramos pequenos, esperávamos com ansiedade o dia que tios Itamar e Silvia chegariam de S.Paulo. Toda vez um Fusca novo. Ficávamos adivinhando qual seria a cor do do novo modelo. Ela trazia balas, presentes, seu carinho e os famosos envelopes com um ‘dinheirinho’ pro cinema.
    E o melhor: quando voltavam para Sampa, me levavam para passar férias com vocês. Momentos inesquecíveis… Uma Tia querida, inesquecível…

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    • bettinabopp
      julho 16, 2014

      E a gente amava quando você vinha pra SP ou pra Paulistinha,Ike! Até naquela batida do Opala vc tava com a gente! Bj, primo querido

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  5. bruyez
    julho 30, 2014

    Lembro muito da “Vó Silvinha”… Na realidade, eu lembro muito das suas duas avós… Mas lembro que em um aniversário da Bubu, no salão do prédio de vocês, eu fiquei muuuito surpresa em saber que ela era a bisavó da Bubu e não a avó, e ela ficou toda contente porque eu achei ela muito jovem!
    Acabei de ler seu último texto também… não para de escrever!!!!! Amo ler cada um e ficar imaginando cada coisas que você nos conta!

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  6. Marilda
    novembro 13, 2015

    É tão gratificante e engrandecedor, um aprendizado a cada texto que você escreve, que força, que persistência, que amor!!! É muito bom ser amado assim desse jeito que essa família se ama. Poder fazer parte da estoria de vocês e poder sentir também um pouco desse amor, que em cada palavra que você ou outro interlocutor escreve transbordam e se espalham, mais uma eu quero te agradecer por deixar eu fazer parte disso. Muito amor para vocês e que o Ita onde estiver seja capaz de senti-lo. Eu tenho certeza: que ele sente. Bj

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      novembro 15, 2015

      Que mensagem mais linda, Marilda! Muito obrigada! Beijo com todo o nosso carinho! ❤

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