pra quando você acordar

por Bettina Bopp

E carrega o destino pra lá

papiyos

Você não vai acreditar, mas em 2009, fizemos uma viagem para o sul pra comemorar a primeira Oktober Bopp! Sim, um encontro dos Bopps espalhados pelo Brasil, lá em Santa Maria.

Fomos todos nós de casa: o pai, a mãe, o Fabio, a Dani, a Isabella, o Fabinho – o Derek ainda não tinha nascido –, a Bruna, o Lucca, a Maria e eu. A mãe saiu com o coração apertado. Deixar você é sempre uma questão pra ela. Mas seu William deu conta de acalmá-la.

O pai queria muito que fizéssemos essa viagem. Organizou nossa ida sozinho, pensou nos detalhes todos. Separou fotos antigas e comprou cartelas de fichário pra escrever itinerários, hotéis, nomes dos parentes… E alugou uma van com motorista para irmos de Porto Alegre a Santa Maria, bem ao estilo Little Miss Sunshine.

Agora imagina o Fabio numa van com o motorista andando a 60 km por hora e mostrando a paisagem bucólica. Ao longo dos 252 km, paramos várias vezes pra trocar de lugar, porque sempre alguém estava sentado de um jeito desconfortável. A mãe, como de costume, levou uma mala enorme, como se fosse morar lá e não passar cinco dias. E Santa Maria pareceu mais longe do que Kuala Lumpur.

Quando a gente chegou, entregaram camisetas e crachás que mostravam de que tronco da família cada um era. Éramos os únicos do tronco do Ita-avó, já que o Raul, a Fe e o Lu não puderam ir. Os irmãos do Itinha tiveram mais filhos, então a família de lá é bem grande.

Na primeira noite aconteceu uma coisa esquisita. Enquanto a Dani dava banho no Fabinho, na época com três anos, ele falou: “Mãe, quem falou Sabinho?”. A Dani não entendeu muito a pergunta. Ele repetiu diversas vezes. Saindo do banho, perguntou pro Fabio: “Pai, quem falou Sabinho?”. Só o Ita-avô chamava o Fabio assim. Acho que o Itinha estava lá. Fabinho e seus contatos imediatos!

A programação era variada: almoços, jantares, missa, ir de madrugada até um lugar onde o primeiro galo cantou na terra de um Bopp ou visitar o túmulo do primeiro Bopp enterrado aqui no Brasil. Não preciso dizer que a gente não foi nem ver o galo, nem o túmulo, mas o resto foi bacana.

No almoço do último dia, entregaram canecas com o brasão da família. Você sabia que a gente tinha um brasão? Nem eu.

O pai, sempre divertido, era disputado pelos primos de todas as idades. Nesse mesmo dia, começaram a organizar a Oktober Bopp II.

Mas não deu tempo. Ali foi o começo da despedida do pai. Logo depois que voltamos, foi diagnosticada a doença. E ele encarou esse desafio da mesma forma que viveu, com dignidade, força e generosidade.

O pai foi um doente fácil. Aceitava tudo. Dizia que não queria enjoar ou ter dor. Não teve nem uma coisa nem outra. Merecimento.

Médicos e enfermeiros foram se apaixonando por ele. Pelo humor, pelas gentilezas, pela inteligência.

Um dia, entrei no quarto e um enfermeiro velhinho estava puxando os dentes dele com um guardanapo. “Oi, o que o senhor está fazendo?”, perguntei. “Estou tirando a dentadura.” “Mas ele não usa dentadura, são os dentes dele”. O velhinho se desculpou e saiu do quarto. Perguntei por que ele não tinha avisado. O pai disse que não sabia muito bem o que o enfermeiro estava fazendo, mas não queria deixá-lo sem graça.

E era assim. Toda vez que uma enfermeira entrava, o pai oferecia chocolates, biscoitos e todos os mais variados doces que a mãe fazia pra ele. Adivinha se a porta do frigobar do quarto fechava? A mãe ficou amiga do hospital inteiro – ganhou de uma recepcionista um tucunaré de três quilos vindo diretamente de Manaus! – e o pai tinha ciúme de um rapaz da limpeza que parecia um ator indiano. Tá bom pra você?

Ficamos muito juntos durante toda a doença. Eu só queria estar ali, sempre ao lado dele. Durante um mês ele ficou sem conseguir falar, usando sonda alimentar, mas consciente. Claro que ele queria passar o que você passava, Ita. Era uma forma de entender você. Descobrimos o segredo e ele então teve que parar com a bobagem. Voltou a falar, a comer e foi pra casa.

Três meses depois, voltou pro hospital e os exames mostraram que ele estava melhor. O médico ficou animado. O corpo estava reagindo e a doença física controlada. Mas um dia percebi no olhar dele que ele não queria mais ficar. Não por causa das intermináveis passagens pelo hospital. O pai era generoso, ele pensou na gente, queria nos poupar. Não quis nos ver ali, de novo, morando em um hospital. Tomou a decisão e o coração fibrilou.

Na segunda-feira à tarde, do dia 29 de novembro, um ano depois da Oktober Bopp, telefonei pros meus filhos e disse que o vovô queria ir embora. Conversei com o Fabio e com a mãe e decidimos que assim seria, se ele quisesse.

E o pai esperou meus filhos chegarem, mesmo que dormindo. Estávamos todos lá, de novo, apertados e desconfortáveis como na van para Oktober Bopp.

Sabia exatamente o que eu estava perdendo pra sempre. Meu melhor amigo. Meu mentor. Meu cúmplice. Meu GPS – porque não é fácil andar em São Paulo. Meu Norte. Minhas referências. Meu melhor ouvinte. Meu ídolo. Meu fã.

O coração fibrilou de novo. E então dei a mão pra ele e contei como eu era feliz por tê-lo tido como pai. Como ele foi necessário em todos os momentos da minha vida. Como era importante tudo o que ele tinha me deixado. E como era generoso nessa hora eu só estar sentindo paz. Não houve dor, nem minha nem dele. Só foi bonito.

Acho que eu estava sem coragem, Ita, mas precisava te contar.

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16 comentários em “E carrega o destino pra lá

  1. Luis Henrique
    junho 29, 2014

    Um grande homem. Íntegro. Impossível não me emocionar ao ler isso, Betina.

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  2. bettinabopp
    junho 29, 2014

    Ike, meu lindo, mtos beijos! ❤

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  3. Roberta Ferreira
    junho 29, 2014

    Que palavras lindas, Bê!
    E seu pai merece cada uma delas! Me lembro tão bem a gente criança chegando da escola pra almoçar , eu vc o Fábio e o Itamar e a sua mãe, logo chegava seu pai do trabalho, alto, bonito de bigode , e a gente sentava naquela salinha de almoço , e sempre era muito gostoso estar com vocês , lembro deles, seu pai e tia Maria Elvira sempre sorrindo, sempre carinhosos, realmente sua família é maravilhosa, e você saiu aos seus! Bjs e saudades desses tempos…

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    • bettinabopp
      junho 29, 2014

      Robi, minha linda, era uma delícia mesmo estar com você! Você sempre foi querida por todos nós – apesar do Fabio insistir na espingardinha de rolha! Bj

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  4. lulicrespin
    junho 29, 2014

    Acho que a morte de seu pai Ita,
    Foi o acontecimento mais triste que aconteceu depois que você dormiu
    Falar dele sempre me emocionou e emociona
    Eu sei que tenho em mim certa carência paterna
    Mas seu pai sempre foi um exemplo de pai, avô, ser humano
    Ele era um homem bom, recheado de valores, bondade, benevolência
    Ele sempre foi aquela pessoa que procura fazer o bem e tentar ser melhor
    Em silêncio ajudava quem podia, tomava as dores de quem gostava e ia tirar satisfações e tentar resolver as injustiças
    Claro que sempre me identifiquei com ele
    O melhor é que sempre disse isso a ele
    O quanto era especial, o quanto o amava e que era como um pai para mim
    Acredito que ele por sempre cuidar de tudo e de todos tenha adoecido por sentir que não pode fazer nada para impedir que você dormisse
    Sei que de alguma forma agora ele sabe que nunca falhou em cuidar dos seus
    Foi exemplar e de uma forma só dele se faz presente
    Ele deixou muita saudade, mas deixou uma lição tão especial que a saudade é mais poesia que lamento
    Sim Ita, ele me ensinou que os pais podem ser muito mães, algo raro
    Tenho um enorme orgulho das pessoas raras que me deram a oportunidade de conviver com elas e aprender tanto
    Sei que escrever sobre seu pai no blog hoje, foi para a Be doído, mas como não escrever do pilar de sustentação dos Bopp?
    ❤️

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    • bettinabopp
      junho 29, 2014

      Lindo, lindo, Lula! Além de esperar você, ele esperava os 312 M&Ms que você trazia em todas as visitas!!

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  5. Sofia Faria
    junho 29, 2014

    Ai ai….cada domingo,sinto um pouco de alivio,qnd leio seus textos,dou gargalhada alta e em 3 segundos to chorando,aquele choro de chuva sabe?que nao para de escorrer de pingar…afff mas depois desse mix de emcoes,qnd acaba, me sinto aliviada…Tenho sempre a sensacao que o Ita esta mais perto.Acho que ele ri muito ,vendo a gente ler esses textos aos domingos,pq eh uma explosao de emocoes de sentimentos…muito, muito lindo ,como sempre.amei .Obrigada por dividir com a gente,,essas experiencias faliliares maravilhosas!!!!MUITO.Obrigada beijos e beijao no Ita!!!

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    • bettinabopp
      junho 29, 2014

      Sofia, sempre tão querida, já to ficando mal acostumada. Espero ansiosa sua leitura e seus comentários! Obrigada ❤

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  6. Bruna
    junho 30, 2014

    Texto maravilhoso!
    Tenho muito orgulho de você. De como cuidou do vovô, de como como contou para o Má e da coragem que tem para enfrentar o que for preciso.
    Te amo!

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  7. Raquel
    julho 23, 2015

    Apaixonada pelas histórias.
    Obrigada por me permitir “conhecer” um pouco desta linda família.
    Luz para vocês!

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  8. Wanilda Tieppo
    agosto 7, 2015

    Linda,

    Que homem admirável! Adorei ler tudo que escreveu!

    Bj

    Curtido por 1 pessoa

  9. Nathalia
    outubro 2, 2016

    Que texto lindo !!! Lembro bem dele também … Transmitia paz no olhar…. Iluminado !!!

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Publicado em junho 29, 2014 por e marcado , , , , , , , , , , , , .