pra quando você acordar

por Bettina Bopp

E não houve outro jeito

Você não vai acreditar, mas envelheci. Nem eu mesma acredito. O combinado era que isso demorasse anos pra acontecer. Porque, veja, uma pessoa que tem avó, não pode ser velha, porque a avó é a velha da história. Depois vem a mãe e só depois vem a pessoa.

Até 2012 nós tivemos avó. Tá certo que a vó Gilda era praticamente um Highlander, guerreira imortal, e que a morte se esqueceu de levá-la por muito tempo. A vó Gilda devia pensar que viraria semente ou começaria uma outra civilização. Na dúvida se os escafandristas viriam explorar sua casa, seu quarto, suas coisas, sua alma, acabou desistindo e se foi – a velhice é, antes de mais nada, uma desistência.

Mas voltando à minha velhice. Eu uso óculos. Dois. Pra perto e pra longe e acho que ainda não é o suficiente. Precisaria de uns óculos de piscina com grau pra tomar banho. Com frequência, não sei qual é o shampoo e qual é o condicionador. Tem marcas com estratégias de cor e tampas pra diferenciá-los, mas não são todas. E só descubro a importância dessas marcas depois que começo pelo condicionador e deixo o cabelo emplastado.

Lentes de contato deixei pra usar em outra encarnação, porque nessa não vim com essa habilidade. Sofro, fecho os olhos e perco antes de colocá-las no lugar certo. E como não sou uma pessoa que guarda os óculos dentro da caixinha, a cada semana (juro!) quebro a perna de um deles e preciso mandar consertar. A menina da ótica já me chama de “Be querida”, tamanha a intimidade desses últimos meses.

Continuo dando aula. Passei mais tempo da vida dando aula do que não dando. Isso sem contar as aulas que dava pros azulejos enquanto tomava banho. Na infância, claro.

Tive dengue. Tá, não é doença de gente mais velha, mas também não tem nenhum glamour. No ano em que tive, fui a primeira do bairro e virei caso índice da Secretaria de Saúde, com bonequinho no mapa da Zona Sul e tudo. Certo glamour.

Nesse meu envelhecimento, passei a gostar mais do Caetano do que do Chico. Calma, ainda amo o Chico, mas a implicância com o Caetano, adquirida naquele show que fomos em 82, Cores e Nomes, passou. Sempre achei o Chico genial sem querer ser, no simples. E, mimada, achava que o Caetano se esforçava pra ser o-mais-incrível. Há um tempo – tempo, tempo, tempo, tempo – vejo que ele tem mesmo coisas geniais e tudo bem ele querer aparecer por isso.

Já falei que continuo dando aula?

Estou conformada que não sei mesmo cozinhar. Não tenho talento, não vou aprender e vou passar essa vida dependendo de delivery. Pra cozinhar precisa ter uma capacidade que não tenho, não adianta. Meus filhos já anunciavam isso, ao deixarem intactas as mamadeiras e os pratos de sopa. Mas, olha que bom, deixei de ser tão fresca pra comer. Gosto até de molho vermelho. Ainda não superei a cisma com espaguete a bolonhesa e bracciola.

Ter um cachorro meio tanso, com certeza, é sinal de velhice. O olhar apurado pra escolher um filhote não parece funcionar tão bem e você só se fixa na manchinha do pescoço em formato de coração. E traz pra casa o cachorro que tenta dar a pata de trás, que fica com a língua pendurada de lado como uma hiena do Rei Leão, que deita só com a parte da frente do corpo – e permanece com a parte de trás levantada – e que prende o quadril dentro da estante de livros. Esse é o Folk, meu cachorro lindo, mas tonto.

Ah, e dou aula até hoje. Às vezes pra filho de ex-aluno – isso, então, é de uma velhice sem tamanho.

Sou a mãe mais preocupada do mundo. Mãe de três adultos, mas que me esforço pra eles não perceberem isso. Que gene é esse nosso, lotado de  ácidos nucléicos e medos terríveis, que deixa a gente tão apegado e neurótico?

E se eu estou assim, imagina a mãe. Agora imagina a mãe em dias de temporal, quando 50 milhões de raios caem no Brasil anualmente. Influenciada pela memória da vó Gilda, ela passou a cobrir espelhos, queimar folha benta, ficar apavorada e falar Santa Bárbara Virgem e São Roque Milagroso padroeiro dos aflitos a cada raio e trovão – ou seja, 50 milhões de vezes. E telefona pra todos nós pra dizer pra gente não usar o telefone!

Outro dia, li uma entrevista do Nando Reis na qual ele falava sobre a percepção sobre a própria finitude. Recentemente, a Fernanda Torres escreveu um livro chamado “Fim”, um romance sobre a corrida contra o tempo. Decerto eles também estão pensando sobre envelhecimento. Lembro que depois do que aconteceu com você – e logo com você! – muitos amigos que foram te visitar no hospital, apareceram com um band-aid redondinho, sinal de que tinham feito exame de sangue e se preocupado com a passagem do tempo.

Porque é isso. Tudo o que muda a vida vem quieto, no escuro, sem preparos de avisar. Envelhecemos de uma hora pra outra. Eu, você, o Nando Reis, a Fernanda Torres, o Tony da farmácia, a Lourdes da banca de jornal, o frentista do posto, a menina linda do bairro,…

Mas sabe, Ita, existe beleza na maturidade. Existe sabedoria, tolerância, valorização do que é essencial… Porém, tudo isso desaparece rapidamente com duas perguntinhas desestruturantes: Já aposentou? Já tem netos?

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11 comentários em “E não houve outro jeito

  1. lulicrespin
    junho 8, 2014

    Hoje a Bê me fez rir no blog
    Ela usou seu humor para falar que estamos envelhecendo
    Sim Ita, nós temos alguns cabelos brancos, rugas, oculos, lombar, ciático
    É você não tem cabelos brancos nem rugas e com certeza não usaria óculos
    Envelhecemos parte por você
    E outra grande parte por que faz parte da vida
    E sonhei com você esta noite, você tinha acordado e ria comigo e a Bê
    E sua gargalhada única ainda ecoa na minha mente
    A Bê e todos nós continuamos com a veia do humor afiadíssimo
    Continuamos tirando sarro um dos outros o tempo todo
    Mas agora tiramos mais de nós mesmos
    Porque como ela escreveu que com o maravilhoso dom que só ela tem
    O que era engraçado nos avós e pais hoje é na gente
    As coisas mais estranhas e absurdas continuam acontecendo com a Bê
    Ela continua sendo a mais engraçada, quando brinca e quando esta brava, as melhores tiradas e historias continuam sendo dela
    Ela tem 3 filhos que saíram com a mesma ironia e humor
    Continuamos todos loucos
    Mas continuamos todos sãos, apesar dos pesares onde anda você?
    Eu continuo escrevendo igual meu pensamento, rápido demais e nem sempre bem entendido e com nexo, rs
    Mas o que importa é que continuamos com a mesma essência
    E o conteúdo do blog esta cada dia mais rico e que vale a pena esperar o domingo chegar para ler o que ela tem pata te contar
    E Ita, como sempre, você é o galã
    Amei Bê!!!!!!!
    ❤️

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    • bettinabopp
      junho 14, 2014

      Luli, só pra constar: só uso óculos. Não tenho cabelos brancos, rugas, lombar ou ciático.
      Atenciosamente

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  2. Maria Luiza Erbetta Misiunas
    junho 9, 2014

    Bettina adoro seus textos que conheci recentemente por intermédio de sua mãe que compartilhou seu blog. Sou prima da Dete e conheço sua mãe há muito tempo, também conheci sua avó dona Gilda de saudosa memória. Passava minhas férias em Santa Rita onde morava a maioria dos meus tios queridos e cada temporada ficava hospedada na casa de um deles. Tenho gratíssimas recordações desse tempo e sempre achei sua mãe uma das mulheres mais lindas e simpáticas que conheci pela vida afora. Ela ainda mora perto da Praça do Por do sol?
    Vou continuar esperando pela leitura de novos textos que aos poucos vai me fazendo conhecer , de uma maneira bem humorada e comovente, sua especialíssima família , mãe e filhos que escrevem.
    Também gosto de escrever porque também sou professora e ainda dou aulas como vc. Um grande abraço dessa sua nova admiradora
    e lembranças à sua mãe de Maria Luiza

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    • bettinabopp
      junho 9, 2014

      Maria Luiza, que prazer tê-la como leitora! Prazer ainda maior por ser prima da Dete, por quem temos o maior carinho e admiração! Vou contar pra minha mãe e ela vai ficar muito feliz com esse nosso encontro, por enquanto, virtual. Vamos combinar alguma coisa? Bj carinhoso

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      • Maria Luiza Erbetta Misiunas
        junho 15, 2014

        Só agora li sua resposta, depois de ter lido o texto de hoje, e quero sim combinar alguma coisa. Eu moro em Pinheiros pertinho do Institito Tomie Ohtake. Vc costuma passar por aqui quando pega a ciclovia? Podia parar para um cafezinho ou um suco. Bj grande

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  3. Bruna
    junho 11, 2014

    Nossa, acho este texto incrível! É um dos meus preferidos, porque consigo ver você falando cada uma das coisas. Ri muito.
    Te amo!
    PS: o Folk não é lindo. Ele é maravilhoso! Meu companheirão.

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  4. Ricardo D'Elia
    junho 14, 2014

    Para um texto primoroso, comentários adequados!

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  5. Fabiana Baldassare Gonçalves
    maio 29, 2015

    Oi Be, antes que você se pergunte quem é essa Fabiana, sou eu, mulher do Jan (Sebá). Fiquei sabendo da existência deste blog maravilhoso somente agora, pela Stella, e resolvi dar uma olhada. Pois é, uma olhadela e fiquei viciada, encantada com todos os seus textos fáceis de ler, interessantes e muito comoventes. Eu sempre simpatizei muito com você, que é gentilíssima comigo, com o Jan e com a Luisa (e depois que percebi a sua atenção , jeito e proximidade com crianças e, especialmente com ela, gostei mais ainda de vocé… Aprendi com minha mãe que quem meus filhos beija, minha boca adoça), mas nem sonhava o tanto de tesouros que estavam guardadinhos dentro de você! Apesar de serem pro Ita, seus textos fazem bem a todos! Fiquei petrificada de inveja da Dani quando li aquele texto sobre as mães, porque seria um êxtase ser homenageada dessa forma: tão importante e significativo quanto ser retratatada por um pintor muito talentoso. E que surpresa agradável saber que o Lucca, além de lindo e simpático, escreve tão bem quanto a mãe e a irmã Bubu… Maria deve ter ficado nas nuvens com aquela declaração de amor! O conteúdo deste blog tem sim que virar livro e, quem sabe, até um filme dirigido pela Maria? Bem, era isso. Se houver erros na mensagem, me desculpe, estou sem óculos… Também envelheci… Beijão

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      maio 29, 2015

      Que lindo, generoso, carinhoso seu texto, Fabiana! Fiquei feliz e muito emocionada! Vcs são amigos queridos! Jan sabe o quanto o meu pai gostava dele! Muito obrigada, queridaB bj na Lu e em vcs

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Publicado em junho 8, 2014 por e marcado , , , , , .