pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Outro retrato em branco e preto

selfie

Você não vai acreditar, mas se acordar hoje, você já não sabe mais soletrar autorretrato – que agora se escreve assim, junto. Isso porque, desde 2009, existe uma nova ortografia.

Você não acha que ficou a palavra mais feia do mundo? Feia ou errada, como se alguma coisa estivesse fora da ordem mundial? Mandachuva, minissaia, paraquedas. Todas uma palavra só. Essas ficaram esquisitas, mas nada se compara a autorretrato.

E hoje, quando se tira uma foto de você mesmo, usando o celular ou na frente do espelho, não é autorretrato, é selfie. E, às vezes, você sai na foto a cara de um reflexo na calota do fusca: nariz grande, cabeça ovalada, exatamente como aqueles cachorrinhos de pelúcia, que eram brindes do Mc Lanche Feliz em alguma época.

Além de autorretrato, quando você acordar, vai ter de dar conta de um novo vocabulário extenso: iPhone, iPad,  pendrive, touchscreen, blu-ray, Wi-fi.

E também se acostumar ao fato de que celular agora é esperto. Com ele você tira foto, filma, manda mensagem, lê jornais, joga, ouve música, vê vídeos e até fala com alguém no telefone.

Você vai precisar saber baixar aplicativos – aplicativos são programas instalados no seu celular. Tipo o Waze, um novo app de trânsito. Com ele, se alguém falar pro outro “segue sempre em frente que vai dar no Jardins”, não tem chance de, quarenta minutos depois, a pessoa ligar chorando, dizendo que chegou num pedágio, tá sem dinheiro e não sabe como voltar. Amo essa história!

Facebook é uma rede social que, além de outras coisas, encurta distâncias. Sentada na frente do meu computador, encontro a Desiree, a Debora, a Dulce, a Helo, a Paula, a Ângela, e tantas outras amigas queridas que moram longe do meu abraço.

Um aplicativo recente – mas já um pouco antigo – é o Tinder. Ele é uma forma de comunicação virtual para conhecer alguém e, eventualmente, marcar um encontro. O procedimento é esse: cada pessoa coloca uma foto, selfie ou não, para que outras pessoas vejam. Quem ficar interessado, aperta o botão LOVE. Quem não, aperta o NOPE. Se você aprovar uma pessoa e ela fizer o mesmo com você, começa uma conversa.

Fico pensando se você faria parte de uma rede social e se usaria tantos recursos e aplicativos. Os aparelhos eletrônicos, com certeza teria. Seus celulares e rádios eram muitos. Mas o resto… nem e-mail você tinha.

E acho que pra você, que se alimentava da conquista, o Tinder não ia funcionar. Porque você, parado no semáforo, pedia pro vendedor de balas entregar Mentex pra menina bonitinha do carro de trás. Ou entregar todas as flores que o Rosas Murchas vendia na esquina da Rebouças com a Faria Lima.

Depois, gostava de saber cada uma das vontades dela, para atender aos pedidos como um gênio da lâmpada. E gostava de surpreender: piquenique na praia em uma quarta-feira qualquer, compra de um filhote de cachorro, aliança na mão direita e tantas outras que não devo saber.

Quando você tava namorando até o atendente da locadora de vídeo sabia, porque você alugava todos os romances – 9 ½ weeks era o favorito.

E trazia pra conhecer os sobrinhos e levava pra comer pizza na vó Silvinha, embora ali já fosse o começo do fim, porque seu amor tinha prazo de validade. “Quando o Itamarzinho traz a namorada aqui, fico até com pena e não querendo gostar dela, porque sei que ele já vai brigar.” Sábia vó Silvinha. Passado o doído da separação inesperada, você conseguia que quase todas elas ficassem suas amigas pra sempre.

NOPE, acho que você não usaria mesmo o Tinder. Pra você, o interesse seria em apenas um botão:  LOVE.

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10 comentários em “Outro retrato em branco e preto

  1. Desiree
    maio 4, 2014

    Que demais Be…saudades do “Seu Ita”…❤️

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  2. lulicrespin
    maio 4, 2014

    Amei, como amo todos e acho que não mais apenas eu, mas o mundo espera ansiosamente pelo domingo
    Te amo!!

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  3. bettinabopp
    maio 4, 2014

    ❤️

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  4. Marcos Reinach
    maio 4, 2014

    Acho que pela feiura do “autorretrato” que começaram a usar o “selfie” – (não menos feio). Muito bonito, mais este texto.

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    • bettinabopp
      maio 4, 2014

      Acho que deve ter sido isso mesmo, Marcos! Bj

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    • lulicrespin
      maio 4, 2014

      Imaginei o Ita em seu texto do blog e ri.
      Imaginei ele com toda essa tecnologia
      Ele talvez não tivesse saco para tudo, ou tivesse tudo e fosse o melhor em tudo.
      Como sempre foi….quando queria.
      Teria o perfil do Facebook lotado
      Milhões de seguidores
      200 likes por minuto nos posts mais bobos
      Bloquearia o mural no dia do aniversário, para não precisar agradecer milhares de parabéns
      Teria o WhatsApp apitando dia e noite
      Talvez seu Instagram fosse o único perfumado
      Afinal essas coisas meio inexplicáveis sempre foram coisas do Ita.
      Amo seu blog Be, amo a forma que conta tudo
      Amo a forma que escreve a vida para o Ita, para mim e para quem mais chegar.

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      • bettinabopp
        maio 4, 2014

        Você sabe ler o Ita, Lula! Acho que seria assim mesmo! Amo também!

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  5. Bruna
    maio 12, 2014

    A ideia – agora sem acento – do texto é genial!
    Te amo!

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  6. bettinabopp
    maio 12, 2014

    Com ou sem acento, você é minha joia! Te amo!

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Publicado em maio 4, 2014 por e marcado , , , , , , , , , .