pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Temos nosso próprio tempo

RAI

Você não vai acreditar, mas o Raimundo não mora mais no canteiro central da Pedroso de Moraes. Ele viveu ali, entre sacos de lixo, garrafões de plástico, papéis e lápis, de 1992 a 2012.

Um dia, alguém olhou e enxergou o Raimundo. Uma moradora do bairro parou pra conversar, ganhou um poema, se emocionou e contou a história dele numa página de uma rede social. Assim, ele foi encontrado pela família após anos na rua. Vinte anos depois.

Vinte anos é tempo demais.

Nesse tempo, a Bruna foi pra escola pela primeira e pela última vez; o Lucca mostrou que chutava bola com o pé esquerdo e jogou nas seleções da escola, clube e faculdade; a Maria assistiu 512 vezes Em Busca do Vale Encantado e dirigiu dois curtas-metragens.

Nesse tempo, o Collor sofreu impeachment; o Fernando Henrique Cardoso e o Lula foram eleitos presidentes por duas vezes e a Dilma chegou ao poder.

Nesse tempo, o Rodrigo, o Ita-avô, o Mario Sergio, a vó Silvinha, o pai e a vó Gilda, nessa ordem, foram embora. E a Isabella, o Fabinho e o Derek, nessa ordem, chegaram.

Nesse tempo, o Palmeiras, seu time, foi campeão da Copa Libertadores e caiu pra segunda divisão. O São Paulo, meu time, ganhou o Paulista, o Brasileiro, o Mundial e foi eliminado pelo Avaí.

Nesse tempo, eu me separei, o Fabio casou e a nossa casa foi assaltada.

Nesse tempo, a seleção brasileira conquistou o tetra e o penta e o Brasil perdeu Tom Jobim, Ayrton Senna, Renato Russo e o Millôr.

Nesse tempo, vendi meu apartamento, comprei a minha casinha e tive o Jazz, o melhor cachorro de todos os tempos.

Nesse tempo, lançaram a cédula de 2 e de 20 reais, o planeta Marte passou pela menor distância da Terra e o mundo quase acabou.

Nesse tempo, a mãe fez bolos, luzes, promessas, coral e parte de um manifesto de uma revista feminina. Linda!

Nesse tempo, derrubaram as torres gêmeas, a ovelha Dolly foi clonada e Plutão virou um planeta anão.

Nesse tempo, você morou com a Carla, ficou noivo quatro vezes, foi pra Bahia, se apaixonou, se desapaixonou, fez grandes amigos, negociou 200 carros e ficou com 20, comprou uma casa na praia e entrou em coma.

E nesses vinte anos, o Raimundo esteve ali. E a gente atravessou a Pedroso diariamente em dias de sol ou de chuva. De alegria ou de dor. E se acomodou em culpar o tempo – ou a falta dele – para não parar.

E assim os Raimundos foram ficando pra trás, misturados com o lugar, fazendo parte da paisagem, “(…) ignorado quando precisava tanto ser visto.” Esse trecho é do texto Eu sei, mas não devia, da Marina Colasanti, que é lindo “e muito mais verdade do que clichê”.

Ah, e esta última frase roubei do Lucca, que além de canhoto de perna, escreve tão bem quanto as minhas meninas.

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22 comentários em “Temos nosso próprio tempo

  1. Aline Coutinho
    abril 27, 2014

    Maravilhoso!!!!! É até dificil comentar seus textos, vc me deixa sempre sem palavras…. Beijo enorme!!!!

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  2. bettinabopp
    abril 27, 2014

    Aline linda, adoro você e a generosidade dos seus comentários!

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  3. Maria celia
    abril 27, 2014

    Nossa!muito lindo seus textos e todas as vezes que os leio me emociono muito, pois toca minha alma. Beijo grande.

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  4. Paula
    abril 27, 2014

    Nesse tempo você escreveu, deixou de escrever e voltou a escrever para nos curar e emocionar – ainda te devo um texto, mas não sei se chego aos pés – tô trabalhando nele, amada irmã!

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    • bettinabopp
      abril 27, 2014

      Nesses tempos difíceis, você me jogou a boia muitas vezes, amada! Não duvido nunca do seu talento com as palavras!

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  5. Fabi Murad
    abril 27, 2014

    E nesse tempo eu tive a oportunidade de conhecer você! Você e sua autenticidade sem fim! Você e seu coração… coração tipo fusca, que sempre cabe mais um! Nesse tempo eu tive a certeza que na minha lista de exemplos a serem seguidos, o seu nome, Bê jamais deixaria de fazer parte! E foi nesse tempo que só de saber que em muitos momentos você estava por perto eu já me sentia confortada, sabendo pra quem correr….Tudo nesse tempo!

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    • bettinabopp
      abril 27, 2014

      Não perdôo quem me fez perder você do meu convívio diário, Fabizinha! Embora saiba que o que a gente construiu, ninguém tira! Mas a sua gargalhada…Saudades sempre!

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  6. lulicrespin
    abril 27, 2014

    Lindo!!!
    Eu que estou perto de você, perto das histórias, fico esperando o domingo chegar para ler como você vai contar mais uma história
    Como você vai abrir um novo mundo dentro do nosso
    É para quando o Ita adordar, mas eu acordo com seus textos
    Ver nossas mudanças é muito bom
    E suas palavras nos remetem a muitas coisas, de ontem hoje e amanhã
    Para quando o Ita acordar, para quando mais gente acordar
    Te amo

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    • bettinabopp
      abril 27, 2014

      Lula, o seu amor incondicional me empurrou muitas vezes ladeira abaixo. Esse é o tempo de agradecer! Te amo!

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  7. Bruna
    abril 27, 2014

    Vinte anos te admirando e me surpreendendo com as suas ideias e sua força.
    Te amo!

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  8. Juliana Navarro
    abril 28, 2014

    Domingo passado….. Páscoa, renovação, ressurreição. Reinaldo e eu subindo a Serra da Cantareira para encontrarmos com familiares. Foi este o momento em que reli os texto e compartilhei com ele toda minha emoção ao ler em voz alta entre um aperto na garganta e lágrimas que escorriam de nossos olhos. Como ja te falei, conheci o Itamar apenas da boca do meu marido e outros amigos, pessoas estas que sempre o admiraram pela sua bondade, generosidade, alegria entre tantas outras qualidades. As vezes me perguntava….-Como pode uma pessoa ser tão boa assim? Foi quando o vi pela primeira vez, aniversário de 50 anos, seus familiares de portas abertas e com tanto carinho nos recebendo. Amigos ao lado, emoçoes que inundava o espaço. Entendi como uma pessoa pode ser tao boa…… naquele momento senti o tanto de amor, carinho, coleguismo, respeito num unico ambiente. Para quem esta adormecido, o tempo passa sem termos noção do “tempo”, mas para quem se mantem acordado vivenciando as mudanças, as 24h do dia, o tic tac do relogio é desesperador, pois como podemos nos privar de alma tão boa? Hj me sinto previlegiada em poder ler e sentir tantas emoções em seus textos e todos comentarios/postagens deste blog. Concordo com a Lulli, para quando o Ita acordar e tantas outras pessoas acordarem tbm……

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  9. bettinabopp
    abril 28, 2014

    Ju, querida, fiquei muito emocionada com seu comentário! Já tinha achado linda e generosa sua participação especialíssima na homenagem que os amigos fizeram pro Ita, por você nem conhecê-lo acordado! O Ita tinha – e tem – essa qualidade de encantar as pessoas! E certeza que seria seu grande amigo, daqueles pra todas as horas! Vale a pena esperar! Muito obrigada pelo seu carinho e pelas palavras lindas! Bj

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  10. Desiree
    abril 29, 2014

    Ái Be, como eu queria estar mais perto, prá tentarmos entender tudo isso together…como a vida é louca né, vivemos várias, dentro de uma só, até o momento de voltarmos “prá casa” , ou quem sabe sermos resgatadas antes disso…😒

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    • bettinabopp
      abril 29, 2014

      Eu sei que seu coração tá sempre com a gente, querida! Mas queria vc por aqui, sim! Te amo, minha linda!

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  11. Kris Gonçalves
    abril 29, 2014

    Bettina, vc não imagina como fico feliz ao ver que tem novo e sempre lindo, post seu… que vou encher, mais um pouquinho, meu coração com sentimentos tão verdadeiros em relação ao Ita! Só posso agradecer a vc, a oportunidade de te-lo sempre próximo a mim! Obrigada, obrigada, obrigada! Bjs em seu coração!

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    • bettinabopp
      abril 29, 2014

      Kris, que lindo! O Ita devia – deve!- achar o máximo ser seu amigo! Você é bem o tipo de pessoa que ele gosta: generosa, doce, feliz! Que bom que lê os textos! Que bom que temos ele mais perto! Bj grande

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  12. Flávia Arruda Xavier
    abril 29, 2014

    É, Bê, nem sei o que dizer depois das coisas que você diz. Parece que já fala por mim, por nós, por todos! Não sei como consegue fazer isso! E eu nem conheci seu irmão, mas parece que já fiz parte de alguma coisa aí. Aqui, dá vontade de participar das suas histórias, então … aí vai. Nestes 20 anos, te conheci e te perdi de perto, mas não de dentro! Você faz uma falta, lá daquele lado…
    Uma curiosidade: Sabe que conheci Raimundo. É, na minha época de infantil na Viva, eu passava pela casa de saco de lixo dele, na volta da escola para a minha casa, na Vila Madá. Em alguns anos, dei para ele parte dos ovos de Páscoa, que ganhava dos alunos, e já até ganhei um caderninho com seus pensamentos escritos, em letra cursiva caprichada, sobre linhas assinaladas com régua. Eram verdadeiros tratados de psicologia. Ele dizia que ele era “o que a sociedade queria que ele fosse”. Em alguns dias, meu cunhado levava comida do seu restaurante para ele, pois ficava ali perto. É, muita gente passou pelo Raimundo sem deixar rastros, mas com certeza, ele deixou sua marca aqui neste canto de mundo.
    bj grande e Viva o Raimundo!

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    • bettinabopp
      abril 29, 2014

      Flavia, querida, sinto uma falta imensa de você do lado de cá! A sua arte e profundidade deixaram um espaço vazio! Impreenchível!
      Nos meus planos da “volta” do Ita, você vai ser protagonista, já que vou contratar as “Duas Arrudas” pra toda decoração, organização e tudo mais! Será o máximo! Vai até o Raimundo!
      obs: Poderia apostar que você era uma pessoa que parava e falava com ele ali na “ilha”. Sou sua fã! Bj

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  13. Aninha
    abril 27, 2015

    Bettina, você consegue emocionar e encantar com suas palavras, com sua forma de relatar suas histórias. Saudades de estar com você, como em muitas manhãs que chegávamos cedo na escola e ficávamos papeando. Adorava ouvir as histórias do seu cachorro Fred, não era esse o nome? Beijos

    Curtido por 1 pessoa

    • bettinabopp
      abril 27, 2015

      Ai, Aninha, que delicia um post seu! Tenho saudades também das nossas risadas e conversas e da sua voz cantando Caetano! Era Fred aquele cachorro enlouquecido! E tenho agora um outro que promete! Muitos beijos!

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Publicado em abril 27, 2014 por e marcado , , , , .