pra quando você acordar

por Bettina Bopp

Conta comigo, Zé?

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Você não vai acreditar, mas o Zé Paulo te chamou de filho da puta. Da maneira mais bonita, doce e carinhosa que alguém poderia ter chamado. Olha só:

“Num jogo noturno de futebol de salão, jogando pela empresa de um amigo, após entrada dura do goleiro adversário, levantei e lhe dei uma peitada, de leve, só pra não deixar barato.

De imediato repente, ouvi improváveis sapatos sociais pisando firme na quadra. Era um amigo mauricinho do meu amigo boleiro que entrou na quadra pra me perguntar se eu estava bem e já arregaçando as mangas da camisa pra dar no sujeito-goleiro.

Rindo do inusitado, o acalmei dizendo que estava tudo bem, era coisa normal do futebol, não precisava brigar…

Foi assim que conheci o filho da puta do Itamar.

Pra ele me convidar para a festa de aniversário da irmã, que eu nem conhecia, mas com quem viria a me casar, foi questão de semanas.

De gargalhada fácil numa bocarra cheia de dentes, daquele libriano que não sabia dizer não a ninguém, gentil, educado, solícito e bem humorado foi fácil ficar amigo.

Péssimo em pontualidade, excelente na morte do meu pai, cheio de superstições, sapatos, coletes, meias, perfumes e namoradas, o filho da puta do Itamar era capaz de, rezando um Pai Nosso, tirar a dor quando impostava suas mãos enormes, que então ferviam.

Tão médium quanto cagão, soubera ainda jovem que era um protegido quando não herdou nenhuma cicatriz após grave acidente de moto.

Tão inteligente quanto preguiçoso, jamais se furtava a ajudar as pessoas. Quaisquer pessoas sob quaisquer problemas. Assim poderia ter sido médico, advogado, economista, ou nenhuma das anteriores.

Quando nem os médicos sabiam do que se tratava, curou-se sozinho da hoje endêmica Síndrome do Pânico. Sem remédios. Apenas ar-condicionado no talo e halls preto. Ambos ao mesmo tempo.

Primogênito mimado, era o Itamar III do clã dos Bopp.

Bom neto, honrando o sobrenome, tratava a todos os que gostava como se fossem da família. Aliás, mal de família.

Por tudo isso – e quanto mais? – apesar das conversas que tivemos, passei anos não entendendo porque o filho da puta do Itamar, mais do que tio dos meus filhos, resolveu levar uma vida medíocre.

Alguém grande não caberia numa vida assim.

E não coube.

Um libriano de tudo ou nada, hoje vive e não vive.”

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12 comentários em “Conta comigo, Zé?

  1. Bruna
    março 9, 2014

    O Má deu a chance de vocês dois se conhecerem e, desse encontro, nascerem filhos orgulhosos dos pais que têm.
    Que sorte a nossa!
    Texto lindo, pai.
    Ótima iniciativa, mãe.

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  2. Geni
    março 10, 2014

    Ita hoje me lembrei de vc,, sabe assim, de quando ´ramos crianç, ficava perguntando para minha mãe a Dona Maria Elvira vai vir mãe quero brincar com o Ita e com a Be,lembro das queimadas, dos jogo de taco, ahh das boladas na janela do Sr Arcanjo, depois a correria para se esconder, quantas risadas nadando na Paulistinha , das mangas,como era bom que infancia feliz que tivemos, até da Betina procurando na grama aqueles matinhos de duas pontinhas dizendo que quando tivesse filho queria que fosse gemeos e não é que tem o luca lindão e a Maria aqueles olhos lindos, e a Bubu, comoe ela lembra a Betina sempre tomando conta das nossas artes com medo que a gente se machucasse, Ita depois de anos te reencontrei, sim te reencontrei com o mesmno olhar daquele menino que eu esperava para brincar na fazenda, quando que pensei que ia trabalhar em sua casa, acorda Ita para que possamos juntos lembrar disso tudo, oro todos os dias para vc e enquanto isso fico com sua mãe que hoje para mim é minha amiga, irmã e tb a Maria Elvira a MIss como minha mãe chamava.bjs

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  3. Ka
    março 10, 2014

    ansiosa pelo próximo texto !

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  4. Kris Gonçalves
    março 11, 2014

    Fiquei feliz em saber mais coisas boas deste meu amigo tão querido! Quero mais… Bjs!

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  5. Giovanna
    março 12, 2014

    Ze faço das tuas palavras as minhas, o Itamarzinho era especial, eu adorava o jeito dele, aliás a família toda! convivi 10 anos com a família Bopp e foram 10 anos inesquecíveis.

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  6. Paula Toledo Morelli
    julho 28, 2014

    Estava escrito nas estrelas! As cartas não mentem… e o Itamar deu uma mãozinha ao destino. Bjs
    Paulinha

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    • bettinabopp
      julho 28, 2014

      Paulazinha, minha amiga querida, as cartas não mentem, sabemos nós e só nós! que bom te ter por aqui! bjok

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Publicado em março 9, 2014 por e marcado , , , , .